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20.6.10

Carta ao meu menino...

Não consigo deixar de pensar em ti. Em como estarás. Meu menino. A primeira vez que te vi no meio de tanta gente percebi que eras especial. O teu olhar dizia tudo, ao contrário das tuas palavras, sempre tão parcas. Enquanto os outros meninos eram alegres, activos, desinibidos, tu eras calmo, tímido, recatado, às vezes até triste. Chegavas-te a mim e deixavas-te ficar, à espera que te encontrasse no meio de todos os outros. Eu encontrava-te sempre. Procurava-te como quem procura água para matar a sede. Precisava de ver o teu olhar e mostrar-te que te via, sim. Eu via-te. Tu sabes que sim. E tu vias-me a mim. Os nossos olhares não precisavam de palavras, porque se entendiam. Eu sabia que tu gostavas de mim, tu sabias que eu gostava de ti. Arrancar-te um sorriso era sempre difícil. Mas quando mo oferecias, era como um raiozinho de sol que iluminava o meu dia. E que sorriso lindo tu tinhas!...
Sabes, meu menino, não consigo deixar de pensar em ti. Como será o teu futuro? Será que vais conseguir cumprir os teus sonhos? Continuarás a aprender a ler e a escrever, como me mostraste, orgulhoso, no teu cadernito que trazias da escola ao fim da manhã? Serás um dia um homem realizado?... Adormeço e acordo contigo no meu pensamento. Espero voltar em breve para te rever e saber o que já aprendeste mais. Espero encontrar o teu olhar no meio de tantos meninos e sentir-te sorrir para mim. Espero que sejas, simplesmente, feliz, meu Mamadou-Faye!...

24.4.10

Avô...


...hoje era o teu dia. Dia de alegria. De ti guardo a felicidade de fazer anos, de comemorar a vida, de não querer nunca morrer. Mas morreste, avô. E por muito que eu saiba que estás comigo, de outra forma, não estás aqui, não te posso abraçar e encher de beijos, não te posso ouvir nem dizer que és o melhor avô que eu poderia ter. E isso dói, dói tanto, tanto, avô. Dói agora mais do que nunca. Às vezes, quanto mais tempo passa, mais parece que te sinto a falta. Às vezes ainda sinto o teu cheiro, o teu cabelo fino e suave, as tuas mãos fortes, apesar das rugas. Ainda tenho vontade de entrar a correr em tua casa, a chamar o teu nome e a ouvir-te responder-me. Ainda vejo o teu profundo olhar azul no meu, ainda ouço a tua voz a dizer-me o que nunca mais ninguém me dirá e que eu precisava tanto de ouvir. E hoje, mais do que nunca, sinto a tua falta, avô. Sinto demais a tua falta.

3.12.09

As cores da vida

Queria amiga Guida,
passados tantos anos da nossa troca de correspondência, hoje apeteceu-me novamente escrever-te. Hoje não sei a tua nova morada, mas sei que lerás esta carta na mesma. Tenho-me lembrado muito de ti, mesmo muito, mais do que imaginas e do que te digo, porque hoje estamos um pouco mais longe, embora eu te continue a sentir sempre perto no meu coração. É curioso como podemos estar anos sem ver e sem falar com alguém, mas continuarmos a senti-lo tão perto, tão presente.
Escrevo-te para te dizer que marcaste a minha vida. As tuas palavras ficaram gravadas para sempre na minha memória. Entre muitas outras, recordo as que utilizaste para começar uma dessas muitas cartas, guardadas num baú especial: "tu existes?"... Dizias-me sempre, com um sorriso e os olhos humedecidos, que admiravas a minha forma de ver o mundo, dizias que eu via tudo "cor-de-rosa" e que isso era lindo, dizias para eu nunca deixar de ver o mundo com esse meu olhar. Eras mais velha, mais experiente, das pessoas mais inteligentes que conheci até hoje, e eu tentava perceber essa tua admiração, porque para mim era óbvio que o mundo era cor-de-rosa!....
Hoje, amiga, penso em ti. Apetece-me dizer-te que cresci, que descobri com a vida que o mundo é de muitas cores, de todas as que existem. Descobri que o mundo é da cor que o quisermos pintar, mas que há momentos em que outro alguém o pinta por nós, muitas vezes numa cor que não gostamos e que queremos a toda a força mudar... Ou será que somos nós que o pintamos e não nos apercebemos? Ou não queremos perceber?... Como vês, as perguntas continuam, isso não muda e penso que não mudará. Descobri também que a vida só faz sentido se conseguirmos viver intensamente tudo o que cada cor tem para nos dar, viver intensamente os momentos felizes e viver de forma igual os infelizes. Só assim podemos sentir que vivemos, verdadeiramente. Sabes, amiga, percebi também que a minha cor preferida é o branco. Pelo meu apelido, que uso orgulhosamente como a herança mais preciosa da minha família, mas pela serenidade que representa e que consegui encontrar em alguns (poucos) momentos. Alguns deles partilhaste comigo. Lembras-te da caminhada a pé a Fátima, em 1998? Poucas vezes senti a paz e a serenidade que senti naquela noite, na vigília, no Santuário. Como esses, outros momentos se seguiram, todos marcantes, todos de uma beleza incomparável. Ultimamente, a minha vida tem sido a busca pelo branco, por essa paz no coração. Sei que um dia a voltarei a encontrar, talvez nas coisas mais simples e inesperadas.
Saudade, muita saudade, da tua, sempre, amiga.

5.9.09

Falta

Hoje abri o meu Baú, este mesmo, e a música começou a tocar.

You raise me up, so I can stand on mountains;
You raise me up, to walk on stormy seas;
I am strong, when I am on your shoulders;
You raise me up….To more than I can be.


Há muito tempo que aguentava as lágrimas que tinham que acabar por sair... Hoje, especialmente. Hoje que te perdemos há nove anos, prima. Hoje, que estou na casa onde nasceste, cresceste e viveste tantos anos, e pergunto o que o futuro me reserva. Eras tão cheia de vida, infeliz, talvez, sozinha, mas cheia de vida. Hoje, a porta do teu quarto esteve aberta. Permanece como sempre o conheci desde pequena, com as bonecas que animaram a tua infância e que achava lindas. Agora olho para elas e vejo apenas destroços de um passado feliz que não volta mais. Fazes falta. Muita, a muita gente que ainda chora por ti e nunca se esquece de como a doença pode ser tão cruel e destruir-nos os sonhos.
Hoje vi-te. Há muitas semanas que não ia a tua casa, não me perguntes porquê, avó Maria. Há respostas que temos, mas que são para ficar connosco enquanto puderem ser nossas. Quando ouvi a tua voz e te vi aparecer apeteceu-me fugir. Sim, eu sei que parece cruel, mas pela primeira vez apeteceu-me fugir. Não te olhar nos olhos quando me perguntas pela vida, não ver como estás tão velha, avó!... A pele dos braços e das mãos tão velha... A voz a tremer. A cara abatida. A bengala onde te apoias para fazer o que ainda te vai dando ânimo e... esperança? Talvez. Nisso és como o meu avô Grilo, não queres morrer, eu sei. Ouvi-te muitas vezes dizer, tal como ele "eu sei que temos que morrer, mas eu cá não queria, se pudesse vivia sempre!". E rias-te muito, como sempre fazes quando achas que dizes uma coisa disparatada. Não é, avó. Eu penso o mesmo, sabes? Não queria morrer nunca, mas mais do que isso, não queria que vocês morressem nunca. Olho para ti, hoje, e percebo que a vida passa depressa demais, que perdemos depressa demais os que mais amamos e os que nos "levantam". A música do meu Baú continua a tocar e lembro-me daquele que mais me animava e fazia feliz. O meu avô. Tristeza? Melancolia? Não, apenas saudade, muita saudade, daquela que aperta o peito e faz as lágrimas caírem assim...

29.3.09

Afecto

É quando regresso à Igreja que uma saudade imensa me invade. Ouço o teu nome na missa que a avó manda rezar. Apetece-me gritar: "não, enganou-se, senhor padre, esse nome não!". Ouvi-lo torna tudo real. Olho o lugar que ocupaste durante tantos anos, onde me ouvias todos os Domingos, sempre orgulhoso, a fazer as leituras... Dizias que não era por ser tua neta, mas que não havia ninguém que lesse de uma forma tão sentida como eu. Hoje já não leio, a última vez que o fiz foi na tua missa. Desculpa, mas não me apetece ler mais.
Sabes porque tenho tantas, mas tantas saudades tuas? Por tudo, mas especialmente porque me dizias coisas bonitas, como mais ninguém me dizia nem diz. Para ti eu era a mais tudo, só tu me disseste isso toda a vida. E eu sinto tanta falta de te ouvir dizer isso! Sinto falta do afecto, que ninguém dá como tu. Agora percebo. Tenho pensado e observado muito. E percebo que tu eras a pessoas mais afectuosa da família, para toda a gente. Tu beijavas, abraçavas, emocionavas-te, chamavas amor, querida, linda, a toda a gente. Eras carinhoso, doce, meigo. Também tinhas o teu mau feitio e aí era melhor fugir, mas o que fica para sempre é o afecto. E apesar de dizeres que eu era a mais, sempre me disseste também o que eu era a menos, o que tinha de menos bom e que tu não gostavas de sentir ou de ver. Nunca fui mimada, fui educada. Às vezes ferias-me quando me dizias algo menos bom, que eu devia mudar ou que não tinhas gostado. Ia para casa a chorar, fechava-me no quarto até adormecer. No dia seguinte não esquecíamos, continuávamos feridos, magoados. Mas passava mais um dia e aí esquecíamos. Eu chegava e tu davas-me um beijo transpirado (que eu detestava e limpava à escondidas) e dizias "olha a minha netinha linda!". Hoje daria tudo para ter mais um beijo desses, que faria durar eternamente. Daria tudo para te ouvir dizer mais uma vez o que eu era mais que tudo. Fazes-me tanta, mas tanta falta!...

28.2.09

Cartas

Será que ainda há quem escreva cartas? Hoje tenho-me lembrado das cartas que escrevi, das cartas que recebi. Terão sido dezenas, centenas no total? Todas as que recebi tenho guardadas. Bem, não todas. Uma vez, num acesso de loucura (ou terá sido estupidez?...) queimei aquelas cartas, as únicas que me falavam de um amor que, soube mais tarde, seria eterno e muito mais verdadeiro do que quis acreditar. Se pudesse, hoje recuperava aquelas cinzas que o vento levou e reconstruía todas as palavras que a minha fraca memória não me traz de volta. Não eram apenas palavras, eram a recordação de um tempo que não volta mais, de um amor tão sincero que me assustou e afastou. Anos mais tarde telefonaste. Reconheci imediatamente a tua voz, pensei "porquê? porquê agora?"... Seria um sinal? E fui ter contigo. Mas percebi que, para mim, era o sinal de que aquele amor fazia apenas parte das doces e ternas memórias. Não o era para ti, e isso assustou-me novamente. Fugi outra vez. Hoje não sei de ti. Tenho o teu número e apetece-me telefonar só para falarmos, para saber de ti. Mas não o faço porque não te quero novamente magoar. Irias perguntar também "porquê? porquê agora?" e eu não quero isso. Um dia, quando a vida o quiser, voltar-nos-emos a encontrar, tenho a certeza. E falaremos outra vez de sonhos, de angústias, de projectos fracassados, mas cada um seguirá novamente o seu caminho, eu sei.
Lembro-me das cartas que escrevia semanalmente, religiosamente, à minha paixão secreta. Bem, não era propriamente secreta, porque as cartas iam identificadas e várias pessoas sabiam... Mas eu pensava, na altura, que não te transmitia o quanto sonhava contigo, o quanto me sentia fascinada. E com quê, se eu nem te conhecia?... E tu, um querido, várias vezes te deste ao trabalho de me enviar um mimo nos meus anos ou no Natal. Porquê? Porque me olhas ainda hoje com essa ternura no olhar se eu para ti nem existia? Será, que sem que o soubesse, as minhas cartas iluminaram os teus dias, te deram novo ânimo quando ele não existia?... Nunca falámos para além do básico, mas um dia gostava que me respondesses a estas perguntas. Um dia, quem sabe?...
Não me recordo das palavras, mas recordo-me do sentimento, da emoção tão forte que sentia, que parecia pôr todo o meu coração naquele papel, às vezes perfumado, que gostava de enviar. Apesar das paixões não correspondidas, do amor em silêncio, do medo, todas as minhas cartas foram assinadas. Hoje penso o que pensarão aqueles que lerem as minhas cartas, com o meu nome lá escrito... Rir-se-ão? Terão saudades, como eu, de um tempo que não volta mais? Pensarão que tudo poderia ter sido diferente se houvesse uma resposta, um sinal?... Ou pensarão o mesmo que eu, com um sorriso melancólico nos lábios, que tudo foram momentos de ilusão, mas que foram tão bons, tão genuínos, tão perfeitos?...
Hoje apetecia-me escrever uma carta, mas já não há moradas. Perguntamos apenas pelo telemóvel ou pelo e-mail, ninguém pergunta pela morada. Para quê?... Ainda haverá quem escreva cartas, afinal?...

27.2.09

Querida L.E.

Esta carta hoje é para si, porque também a merece. Quando a vi hoje pela janela não acreditei, tive que me levantar e ir esperá-la à porta. O sorriso foi espontâneo, o abraço natural. Não foram precisas palavras, a L. chorou, eu sorri. Também chorei, por dentro, de gratidão pelo seu carinho por mim. E quero que saiba que é para mim, como todas as pessoas, especial e única, e é sempre assim que a vou tratar, com toda a delicadeza com que se cuida de uma flor rara, que queremos conservar o maior tempo possível junto de nós. E podemos não nos ver, não estar juntas como já não estávamos há tanto tempo, mas eu sei que está aí, todos os dias, todas as noites. E eu também estou sempre aqui, sempre, com a porta aberta para quando quiser entrar. Se nunca ninguém lhe disse, digo-lhe eu, agora: é uma mulher fascinante, com uma força incrível, extremamente inteligente, que merece toda a felicidade do mundo! E sabe que o digo de coração!
Será que alguma vez lhe conseguirei agradecer por tudo quanto tem feito por mim?...
Um abraço como o que demos hoje, sem palavras, mas com muita amizade.

26.1.09

Um mês depois

Faz hoje um mês, avô... Um mês e eu ainda não acredito. Tento refugiar-me no meu dia-a-dia, no trabalho, nos sorrisos e nas brincadeiras dos colegas e amigos, nas pesquisas na internet, nos livros, fujo da tua casa... Mas quando lá volto tudo volta também, sobretudo a certeza, cada vez mais forte, de que é mesmo verdade. Tudo está agora mais velho, mais gasto... olho para os muros do quintal que cultivavas com todo o esforço e dedicação (ainda o ano passado, já doente, podaste todas as árvores...) e vejo as fendas, a humidade, o musgo. Está tudo tão velho, tão gasto! Parece que num mês passaram 20 anos por aqueles muros! O quintal está agora mais despido, quase nu, já sem algumas árvores que a avó quis abater: "Para que é tanta fruta agora?...". Ela é que manda agora (e sempre?...) e ninguém ousou contrariá-la, apesar de nos doer olhar para algumas das árvores que plantaste e cuidaste a jazer na terra molhada. As árvores e a tua vida... Percebo agora que não quero voltar à tua casa sem ti, mas tenho que cuidar da avó. Encho-me de forças, tento distrair-me e não focar o meu olhar em nada, fazer conversa, pedir conselhos... quando ela sai não consigo evitar e as lágrimas caem, tento disfarçar, dizer que tenho pressa e saio, fujo dali, fujo da verdade que me dói tanto! Pego no carro, ligo o rádio, tento cantar, aumento o volume. Como se acelerar e cantar afastassem mais depressa a tristeza... Sinto que arranjei defesas para me proteger, para ter força para os outros primeiro, a mamã, a avó, o Nunito... E a mim, avô, quem me protege como só tu sabias fazer?... O único escape agora é escrever-te estas cartas, com a esperança que no teu céu tenhas aprendido a ler um blog (tinhas tanta curiosidade pela internet e eu nunca te ensinei...) ou que as recebas através do coração, a forma mais eficaz e poderosa de trocar mensagens com alguém... Amo-te e sinto cada vez mais a tua falta!...

15.1.09

Querido avô...

Custa-me cada vez mais entrar em tua casa. O silêncio... o silêncio é ensurdecedor, esmaga-me... A tua casa nunca foi uma casa de silêncios, pelo contrário. A tua casa era uma casa de ruídos de todo o tipo: o rádio logo pela manhã, quando ainda na cama querias ouvir as primeiras notícias do dia, a máquina de barbear na casa-de-banho, a televisão num volume cada vez maior, as conversas ao almoço ou ao lanche, quando bebíamos o café da avó (humm... o café da avó!! uma das coisas melhores do mundo!...), as gargalhadas, os teus passos, o folhear dos livros ou dos dossiers onde guardavas e apontavas tudo religiosamente (desde correspondência a apontamentos sobre as culturas, os animais, as obras, compras...), toda essa vida desapareceu e tornou a casa vazia demais. A avó é uma mulher forte, tu sempre o disseste, aliás dizias sempre que querias partir antes dela. E assim foi. A avó ficou na casa vazia, sozinha, sem ti e sem os teus ruídos, que a enchiam de vida. O silêncio agora é ensurdecedor, avô...

5.1.09

Querido avô...

Os dias passam e cada vez sinto mais a tua falta, a tua ausência. As pessoas dizem-me todos os dias, com a maior boa-vontade: "A vida continua, o teu avô está sempre contigo, está vivo no teu coração". Eu sei disso, avô, sei que estás vivo na minha memória, mas não estás aqui!... Não te posso tocar, abraçar, ouvir, sentir... E isso custa-me tanto!! Vejo as tuas fotografias e parece que têm vida, parece que ainda tens vida... o teu sorriso, o teu olhar, as tuas lágrimas... Emocionavas-te com as coisas mais simples da vida, com o amor das outras pessoas para contigo, com o nosso sucesso e felicidade. Quantas vezes chorámos os dois?... Não o conseguíamos evitar, éramos os dois sensíveis a muito mais coisas do que a maioria das pessoas, que às vezes não compreendiam a nossa emoção. Mas nós não precisávamos de palavras ou de explicações, o nosso olhar dizia tudo.
Quero e preciso falar, mas não sei com quem, não sei como. Às vezes sinto que ninguém me compreende, por isso acabo por não dizer nada. E sinto-me sozinha, perdida, vazia. Tento falar contigo, mas as palavras não saem, como se falar tornasse ainda mais real a minha dor. Por isso escrevo. Pode ser o maior disparate, mas alivia-me. Mas depois penso como uma criança: "será que no céu há caixas de correio?"... Como te faço chegar esta carta, avô? E como me podes responder? "Mas o céu existe? Onde é o céu, afinal?", pergunto como a criança desta história, sem conseguir encontrar a resposta...

“O pai regressou dos ritos funerários. O seu filho de sete anos estava à janela, de olhos arregalados e um amuleto doirado ao pescoço, cheio de pensamentos demasiado difíceis para a sua idade. O pai levantou-o nos braços e o rapaz perguntou-lhe, «Onde está a mãe?». «No céu», respondeu o seu pai, apontando para cima.
O rapaz ergueu os olhos para o céu e fixou-o longamente em silêncio. A sua mente perplexa lançou longe a questão, através da noite, «Onde é o céu?». Não obteve resposta: e as estrelas pareciam as lágrimas em chamas daquela ignorante escuridão.”

Tagore

Hoje quero ser novamente a criança que fui, fechar os olhos e acreditar ingenuamente que o céu existe e é um lugar tranquilo, cheio de algodão fofinho, onde as pessoas passeiam felizes, onde tu estás em paz, sem sofrer... Hoje quero simplesmente fechar os olhos e acreditar ingenuamente que tudo isto não aconteceu, que ainda estás aqui a apertar a minha mão... Porque não somos imortais?!...

30.12.08

Adeus, avô!...

Querido avô…
Ainda não acredito que te perdemos para sempre… estás tão presente ainda!... às vezes penso que ainda estás no hospital, onde te deixei há dias, mas que vais voltar para junto de nós… Eu senti que te ia perder no último dia que estivemos juntos, mas aquela esperança parva que fomos alimentando não me permitiu despedir de ti… ainda sinto a tua mão a apertar-me com força, já não falavas, mas dizias tanto! Ainda sinto o cheiro tão delicioso da tua pele, o toque macio do teu cabelo, que penteei tantas vezes (gostava de te ver arranjadinho, como tu me ensinaste), a tua boca a beijares-me a mão, feliz pelos mimos que te dei com tanto carinho como tu me deste a mim toda a vida… Ainda vejo os teus grandes e lindos olhos azuis a olhar para mim e a perguntar com a dedicação que sempre tiveste para com a minha formação: “Sempre te atreves a fazer a doutorice?”… “Não sei avô, acho que é muito difícil…”. Mas vou-me atrever, custe o que custar, demore o que demorar, para te honrar e para te homenagear, porque sempre nos incentivaste a evoluir, a aprender, a saber mais. Não te contentavas com o que tinhas, quiseste sempre mais... Acho que saí a ti, nesse como noutros aspectos. Ainda vejo o teu sorriso maroto quando fazias ou dizias alguma brincadeira, o teu piscar de olhos cúmplice quando te “metias” com a avó e ora a fazias rir à gargalhada, ora a deixavas irritadíssima e a praguejar… mas acaba sempre a rir-se, nem que fosse às escondidas… porque te amava, porque viveram um amor daqueles que não sei se ainda há… Como vai ser agora sem ti, avô?... Alguma vez voltarei a ouvir aquelas gargalhadas que me alimentavam a alma?...
Quero-me lembrar sempre da tua coragem, da tua força, daquela força que contrariou todos os diagnósticos que até te davam como demente… Mas tu não aceitaste, lutaste e (terá sido milagre?... o que foi?...) recuperaste de forma incrível toda a memória, aliás, parecia ainda mais fresca e intacta do que há dez anos atrás! Ao fim do dia eras o meu "telejornal", contavas-me todas as notícias do dia, que ouvias atentamente na rádio e na televisão. Contavas as histórias de toda a tua vida com todos os pormenores, incluindo os dias do ano… e eu sabia que era verdade, porque já tas tinha ouvido tantas vezes!... Hoje queria ouvi-las mais uma vez e outra e outra e outra, até à exaustão… ouço-as na minha cabeça e tento não esquecer nenhum pormenor… mas a minha memória é muito mais fraca que a tua e alguns já me escapam… Volta, avô, para as contares novamente e para não me deixares esquecer…
Eras um homem bom, avô, “uma jóia”, como dizia uma amiga tua ao despedir-se de ti. Foi por isso que todas as pessoas da nossa terra (e muitas mais de outras) te vieram prestar a última homenagem. Nem uma faltou avô, todos os teus amigos, de muletas, doentes, sem poderem andar, saíram de suas casa num dia gelado e chuvoso de Inverno para te dizerem que te admiravam e que ias fazer muita falta. E nós sentimo-nos pequeninos perante tamanha homenagem… e tu sentiste-te feliz, emocionado e orgulhoso, eu sei! Recebeste naquele momento tudo o que deste em vida: carinho, amizade, dedicação. Foste amigo de todas as pessoas que se cruzaram contigo, deste muitas vezes tanto aos de fora como aos de casa (ajudavas toda a gente, o que deixava a avó fula! :)), mas isso só me enche de orgulho! Ensinaste-me aquilo que não se aprende em nenhuma escola, foste o meu melhor professor da vida! E eu sei que fui uma neta com muita sorte pelo avô que tive! Sou egoísta, eu sei, porque te queria ter sempre comigo, mas já tive tanto!... Não podia pedir e ter mais do que tive. Fui tão feliz contigo avô!... E é por isso que já sinto tanto, mas tanto a tua falta!... E é por isso também que te amarei sempre, profundamente!...