
Será que ainda há quem escreva cartas? Hoje tenho-me lembrado das cartas que escrevi, das cartas que recebi. Terão sido dezenas, centenas no total? Todas as que recebi tenho guardadas. Bem, não todas. Uma vez, num acesso de loucura (ou terá sido estupidez?...) queimei aquelas cartas, as únicas que me falavam de um amor que, soube mais tarde, seria eterno e muito mais verdadeiro do que quis acreditar. Se pudesse, hoje recuperava aquelas cinzas que o vento levou e reconstruía todas as palavras que a minha fraca memória não me traz de volta. Não eram apenas palavras, eram a recordação de um tempo que não volta mais, de um amor tão sincero que me assustou e afastou. Anos mais tarde telefonaste. Reconheci imediatamente a tua voz, pensei "porquê? porquê agora?"... Seria um sinal? E fui ter contigo. Mas percebi que, para mim, era o sinal de que aquele amor fazia apenas parte das doces e ternas memórias. Não o era para ti, e isso assustou-me novamente. Fugi outra vez. Hoje não sei de ti. Tenho o teu número e apetece-me telefonar só para falarmos, para saber de ti. Mas não o faço porque não te quero novamente magoar. Irias perguntar também "porquê? porquê agora?" e eu não quero isso. Um dia, quando a vida o quiser, voltar-nos-emos a encontrar, tenho a certeza. E falaremos outra vez de sonhos, de angústias, de projectos fracassados, mas cada um seguirá novamente o seu caminho, eu sei.
Lembro-me das cartas que escrevia semanalmente, religiosamente, à minha paixão secreta. Bem, não era propriamente secreta, porque as cartas iam identificadas e várias pessoas sabiam... Mas eu pensava, na altura, que não te transmitia o quanto sonhava contigo, o quanto me sentia fascinada. E com quê, se eu nem te conhecia?... E tu, um querido, várias vezes te deste ao trabalho de me enviar um mimo nos meus anos ou no Natal. Porquê? Porque me olhas ainda hoje com essa ternura no olhar se eu para ti nem existia? Será, que sem que o soubesse, as minhas cartas iluminaram os teus dias, te deram novo ânimo quando ele não existia?... Nunca falámos para além do básico, mas um dia gostava que me respondesses a estas perguntas. Um dia, quem sabe?...
Não me recordo das palavras, mas recordo-me do sentimento, da emoção tão forte que sentia, que parecia pôr todo o meu coração naquele papel, às vezes perfumado, que gostava de enviar. Apesar das paixões não correspondidas, do amor em silêncio, do medo, todas as minhas cartas foram assinadas. Hoje penso o que pensarão aqueles que lerem as minhas cartas, com o meu nome lá escrito... Rir-se-ão? Terão saudades, como eu, de um tempo que não volta mais? Pensarão que tudo poderia ter sido diferente se houvesse uma resposta, um sinal?... Ou pensarão o mesmo que eu, com um sorriso melancólico nos lábios, que tudo foram momentos de ilusão, mas que foram tão bons, tão genuínos, tão perfeitos?...
Hoje apetecia-me escrever uma carta, mas já não há moradas. Perguntamos apenas pelo telemóvel ou pelo e-mail, ninguém pergunta pela morada. Para quê?... Ainda haverá quem escreva cartas, afinal?...