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1.7.10

A alegria que se contagia


No dia 5 de Junho fomos recebidos pelo povo da aldeia onde a AMI tem vindo a intervir e onde fica situado o Centro de Costura que ajudámos a financiar. Segundo a Ilda, o nosso grupo conseguiu financiar por completo o Centro, o que é uma sensação muito boa, de orgulho pelo esforço dispendido.
Não conseguirei encontrar palavras, por mais mágicas que elas sejam, para descrever a emoção que vivi à chegada a Kaba. Fomos recebidos pelo povo da aldeia com uma alegria, um êxtase, uma efusividade que nunca antes experimentei. Foi inevitável conter as lágrimas. Não temos noção de como pequenos gestos, que a nós não custam assim tanto como isso, podem mudar, efectivamente, a vida das pessoas, e de como elas ficam gratas por isso.



Mãos que nos tocam, olhares que se cruzam e permanecem, fascinados, encantados com a sensualidade deste povo. São olhares mágicos, sonhadores, felizes. Pergunto-me como. Pergunto-me do que preciso para ser feliz, como eles. Percebo que posso andar despida e descalça, suja, despenteada, e ainda assim ser feliz. É estranho pensar e sentir assim, mas é verdade.
Fiquei deslumbrada com a dança. Com a energia, a beleza, a cor, a alegria, a sensualidade com que este povo dança. As mulheres são belíssimas, de uma beleza rara, exótica. Têm um olhar magnético, que me prende. E têm-no desde meninas, desde bebés. É impossível ficar indiferente. É impossível não ser contagiada.


26.6.10

Mercado de Touba-Toul



Do meu caderninho de viagem, vou retendo algumas palavras. Eis um bocadinho do que escrevi no dia da visita ao mercado de Touba-Toul, um dos maiores do Senegal, no nosso primeiro dia no país...


Nunca imaginei o que encontrei. Nem sei caracterizar. É um misto de pobreza e miséria e de capacidade de sobrevivência e resistência. Ao olhar em volta, a vida corre como em qualquer parte do mundo. Há mulheres, crianças, homens, velhos. Há os que trabalham e os que mendigam. Há deficientes. Há sorrisos à nossa passagem. Há quem levante pedras ou vire a cara contra as fotografias. Por todo o lado há animais, sobretudo burros e cavalos. As carroças passam, às vezes com velocidade, outras em engarrafamento.

Tudo se vende: telemóveis, mangas, a fruta do baobá, cereais, cadeados, animais, corda, refrigerantes... À minha frente, de repente, uma imagem tipicamente africana: uma mulher mói cereais com uma criança às costas. Fico extasiada. De repente, toca um telemóvel. Ela pára o seu trabalho e atende. Eu sorrio, surpreendida e ao mesmo tempo divertida com uma imagem tão ilustrativa da globalização. Ela sorri-me também, não sei se percebeu o meu sorriso ou não. A vida continua.

As crianças são deliciosas. O sorriso, primeiro tímido, depois aberto, contagia, faz perder o medo inicial de quem, como eu, vem de um mundo tão diferente.
Adoro as crianças. E as mulheres. E os homens. Os rostos. O olhar. Apetece ficar horas a ler os olhares. A fotografar, a tentar levar para sempre quem se cruza connosco num segundo, mas consegue, com esse olhar, dar sentido à nossa existência.


Habituo-me ao calor, aos cheiros, aos animais, ao pó, às pessoas, à pele negra. A pele negra mais bonita que já vi. Cruzei-me com uma mulher que parecia pintada a óleo negro: a pele indescritivelmente lisa, suave, una. Foco-me nas cores dos vestidos coloridos, que contrastam com a aridez da paisagem. É incrível este contraste! Uma profusão de cor e brilho no pó do deserto.

23.6.10

O sorriso mais terno...

Num dos momentos de descanso e de registo de emoções no diário, numa das revistas espalhadas pelo chão que alguém ainda tinha trazido de Lisboa, um anúncio chamou-me a atenção. "Um dia vou descobrir que um belo sorriso faz acontecer muitas coisas". Eu, que acho que nada acontece por acaso, sorri. E recordei os sorrisos mais bonitos do mundo, ali mesmo ao pé de mim, em momentos eternos, gravados na memória, no coração, e nas fotografias, imagens de ternura. Acho mesmo que Deus coloca anjos no meu caminho. E esses anjos podem ter qualquer idade. À saída de uma visita comovente a uma casa de uma família da comunidade onde estivemos a trabalhar, este anjo aparece no meu olhar. Muito sossegado, ao pé de umas cabrinhas brancas, no meio do lixo, ao ver-me sorri. Num sorriso que iluminou o mundo e fez esquecer todas as tristezas, dores ou mágoas que o coração ainda pudesse preservar. A cada sorriso, um novo e cada vez mais belo sorriso nascia. A todos os que lhe sorriram, ele sorriu também, numa doçura maior do que sei dizer, e que só apenas quem presenciou aquele momento é capaz de entender. E foi assim que respondeu às palavras da Ilda, que certamente não entendeu, com esse sorriso terno que nos deixou sem palavras e com os olhos rasos de lágrimas. Como se o sorriso fosse a resposta para todas as perguntas. É verdade, sim, e eu descobri naquele dia, na maior simplicidade, que "um belo sorriso faz acontecer muitas coisas".

20.6.10

Carta ao meu menino...

Não consigo deixar de pensar em ti. Em como estarás. Meu menino. A primeira vez que te vi no meio de tanta gente percebi que eras especial. O teu olhar dizia tudo, ao contrário das tuas palavras, sempre tão parcas. Enquanto os outros meninos eram alegres, activos, desinibidos, tu eras calmo, tímido, recatado, às vezes até triste. Chegavas-te a mim e deixavas-te ficar, à espera que te encontrasse no meio de todos os outros. Eu encontrava-te sempre. Procurava-te como quem procura água para matar a sede. Precisava de ver o teu olhar e mostrar-te que te via, sim. Eu via-te. Tu sabes que sim. E tu vias-me a mim. Os nossos olhares não precisavam de palavras, porque se entendiam. Eu sabia que tu gostavas de mim, tu sabias que eu gostava de ti. Arrancar-te um sorriso era sempre difícil. Mas quando mo oferecias, era como um raiozinho de sol que iluminava o meu dia. E que sorriso lindo tu tinhas!...
Sabes, meu menino, não consigo deixar de pensar em ti. Como será o teu futuro? Será que vais conseguir cumprir os teus sonhos? Continuarás a aprender a ler e a escrever, como me mostraste, orgulhoso, no teu cadernito que trazias da escola ao fim da manhã? Serás um dia um homem realizado?... Adormeço e acordo contigo no meu pensamento. Espero voltar em breve para te rever e saber o que já aprendeste mais. Espero encontrar o teu olhar no meio de tantos meninos e sentir-te sorrir para mim. Espero que sejas, simplesmente, feliz, meu Mamadou-Faye!...

26.5.10

Uma rosa especial...

No dia da espiga dei um passeio pela serra e, miraculosamente, encontrei uma rosa albardeira, cada vez mais rara, mas de uma beleza estonteante. Rara porque, infelizmente, o ser humano é estranho e, em vez de admirar o nascimento e o crescimento de uma flor no seu habitat natural, colhe-a e entrega-a a uma jarra sem vida, onde rapidamente se esvai e perde toda a beleza que só a ligação à terra-mãe lhe dá. Por aqui, é conhecida como "rosa-cuca", por supostamente florescer na altura da chegada dos cucos-canoros. Esta rosa começa a ficar "famosa" e ainda bem! Primeiro a Marta descobriu que "havia vida" numa simples flor nascida por entre pedras numa serra distante, e hoje descobri eu, graças ao Rui, que brevemente irá andar na boca do povo, através do João Gil... Adoro a "minha" rosa-cuca e esta descoberta constante de que as coisas mais simples são mesmo as mais belas!

"vi uma rosa-albardeira
ai se eu pudesse colhia-a
mas disse-me um passarinho
que se a colhesse morria

que se a colhesse morria
pois não se dá prisioneira
meu amor, eu não sabia
que eras a rosa-albardeira

fui-te a ver e não voltei
deixei pai, deixei mãe
e a casa onde nasci
és para mim a primeira
queira deus ou não queira
já não me largo de ti

fui-te a ver ao pé da serra
a tua rosa foi minha
e semeei-te na terra
à noite pela fresquinha

um dia quando eu partir
fica a nossa sementeira
de nós dois há-de florir
mais uma rosa-albardeira

fui-te a ver e não voltei
deixei pai, deixei mãe
e a casa onde nasci
és para mim a primeira
queira deus ou não queira
já não me largo de ti"

João Gil

8.5.10

Libertação


Caminham de olhos postos na estrada ou no horizonte. Das mãos pendem rosários afagados até à exaustão. Cantam, animados por olhares cúmplices sorridentes. Quando a noite desce, parecem pirilampos encarreirados como formigas em direcção ao formigueiro, a casa onde encontrarão paz e consolo para todas as dores. Apoiados em paus, em guarda-chuvas ou uns nos outros, descalços, de chinelos ou sapatilhas, à chuva, ao sol, ao frio, ao vento, ao relento, os peregrinos enchem a estrada e fazem-me desviar o olhar até quase não conseguir ser racional para continuar a conduzir. Para onde caminham? Para quem? Que força é essa que os faz sorrir e não querer parar, mesmo quando o corpo parece apenas um resto do que foi e a dignidade aparentemente se esvaiu? Que fé é essa? Não deveria ser a fé libertadora? E se assim, na dor, no sofrimento, na tortura incessante do corpo, a alma encontrar libertação e conforto? Lembro-me, sim, lembro-me. Também eu já fui peregrina. Também eu já caminhei assim, flagelando o corpo e sentindo o espírito libertar-se através da terrível dor física. Para quê? Porquê? Ainda hoje não sei. Sei apenas que foi como peregrina que senti a mais forte comunhão com Deus e com o ser humano que alguma vez voltei a sentir. Talvez caminhem para isso. Em busca de uma comunhão que o dia a dia não deixa sentir. Mas hoje, que os vejo e secreta e estupidamente admiro, não sei.

5.4.10

Aleluia!


As campainhas anunciam a chegada. Estão cada vez mais próximo. José dirige-se, com o apoio da bengala, para a porta, aberta de par em par desde a hora de almoço, à espera da visita, a única que tem durante todo o ano, desde a morte da mulher, há dois anos. Sabia que só viriam por volta das três horas, mas pouco depois do meio-dia já tinha a porta aberta. Pôs a toalha branca de linho na mesa, a mesma que usaram durante 60 anos para as visitas importantes, como a daquele dia, abriu o pacote de amêndoas que o padeiro lhe tinha oferecido e colocou-o no prato cavalinho, tão antigo como o chão da casa que o abrigava. No pratinho mais pequeno de vidro pôs o folar, uma nota de dez euros, pouco, mas o que podia dar. Estava tudo pronto. Não, faltava uma coisa muito importante! A mulher nunca lhe perdoaria aquele esquecimento. Foi ao pequeno quintal e apanhou um molho de flores brancas, daquelas a que chamavam flores da Páscoa, porque floresciam sempre nesta data. Partiu os ramos aos bocadinhos e espalhou-os em frente à entrada da casa. Agora sim, estava tudo pronto para a visita.
Foi-se sentar à entrada da casa no banco de madeira. Apoiado na bengala, deixou-se ficar a ver passar o tempo. O velho relógio de parede ia marcando o compasso de espera, tão cansado quanto ele. Àquela hora o silêncio era geral, estariam todos, certamente, a almoçar com a família, um bom cabrito, como era tradição, e como ele tantas vezes também fizera. Teve saudades desse tempo, desse sabor, do cheiro que fugia do forno a lenha e invadia a cozinha. Engoliu em seco. Para quê recordar? Coisas tristes, não voltam mais esses tempos, vamos lá ver se a fogueira ainda está acesa. Passou para o borralho, sempre se entretinha com a tenaz a mexer as brasas e ia ouvindo a televisão, mesmo sem ouvir. Era um barulho qualquer que estava ali, só isso, para atenuar o silêncio que escorria das paredes húmidas e frias.
Mas agora estavam perto, já se ouviam as campainhas ali mesmo ao lado. José dirigiu-se à porta, ajeitando o casaco cinzento que só vestia neste dia, para receber Nosso Senhor. Já aí vêm. Compôs novamente o casaco, endireitou-se, tirou a boina. As campainhas agora estão dentro da sua casa, dentro do seu silêncio, dentro do seu coração. Secou uma lágrima. Teimosas. Com a idade deixou de as conseguir controlar, tornaram-se tão fortes como um rio que por mais diques que construam corre sempre em direcção ao mar, poderoso, resoluto, levando tudo à sua frente. Paz a esta casa, aleluia, aleluia! E a todos os que nela habitam, aleluia, aleluia! Mais uma, teimosas, a mão disfarçadamente no rosto, a fazer de conta que se coçava, talvez ninguém tenha visto. Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia! Alegremo-nos todos no Senhor, aleluia, aleluia! Um beijo em Nosso Senhor, um aperto de mão aos rapazes e beijos às raparigas. O olhar curioso a percorrer os rostos desconhecidos. Mas que lindos meninos! Quem é esta? Filha de quem? Já não conheço ninguém, vocês agora crescem tanto e eu nunca saio de casa, já não conheço ninguém. Tirem uma amêndoa. Não, obrigada, senhor José, não temos fome. Olhem que isso é folar, que todos os anos gosto de dar, enquanto eu for vivo, nem que seja na cama, hei-de dar o folar. Obrigada, senhor José. Não querem sentar-se um bocadinho, descansem ao menos que a volta ainda é longa. Não, obrigada, temos que ir que isto é sempre a correr, já sabe, daqui a pouco é noite. E as campainhas saem a correr pela porta, aberta de par em par, para receber Nosso Senhor. Tirem ao menos uma amêndoa! Mas elas já lá vão, a tilintar pela rua, em direcção a outras portas. O sol penetra-lhe nos olhos, quase o cega. As flores pisadas, a porta aberta, as amêndoas no prato, a casa vazia, como nunca deixou de estar. Não ficou ninguém. José baixou os braços, deixou cair a cabeça, vencido. Um homem não chora. Um homem não foi feito para estar sozinho. E as lágrimas rasgaram-lhe as rugas e caíram pesadamente no chão.

2.4.10

Eu queria...


...ser borboleta e voar, voar, voar, e pousar amor e ternura no rosto de uma menina triste, à espera de uma vida feliz. Menina de cabelos ruivos e sardas nas bochechas, porque calas assim? O que guardas dentro do teu coração que não queres libertar? Que palavras escondes no silêncio desse olhar? Tantas horas passámos juntas, frente a frente, lado a lado, mão na mão, e nem um som se desprendeu dos teus lábios cor-de-rosa, cor-de-sonho, cor-de-medo. Vem, menina. Quero levar-te comigo para nos deitarmos na areia quando a praia está deserta e invertarmos nomes para as nuvens que tapam o sol, para corrermos atrás das gaivotas e rebolarmos exaustas de tanto rir por não as conseguirmos apanhar, para entrarmos na água e boiarmos ao sabor das ondas caiadas de espuma. Vem comigo, ternura, esquecer-te do tempo que te faz doer o peito e fere o teu coraçãozinho puro de menina bonita. Vem comigo descobrir poesia em cada momento e inventar palavras para os teus sentimentos. Vamos desenhar um mundo com lápis de sonhos coloridos, onde será sempre dia e o sol inundará a terra de purpurinas de todas as cores, onde não haverá Inverno nem dias de chuva, só sorrisos lambusados de gelado de chocolate e música a nascer de uma caixinha onde uma bailarina dançará sem parar. Vem comigo, menina, minha menina... Vem comigo sonhar!

8.3.10

Ritual


Os vizinhos viam-na passar, abanavam a cabeça e pensavam “lá vai aquela maluca”. Há muito que tinham deixado de a tentar demover daquela ridícula ideia. “Onde já se viu, ir todos os dias ao cemitério, faça chuva ou faça sol? Estava tão bem em casa, ao borralho. Aquela mulher ainda apanha uma pneumonia com esta maluquice e vai fazer companhia ao marido mais depressa do que pensa.” Júlia sabia bem o que os vizinhos pensavam, olhava-os pelo canto do olho sem que eles se apercebessem e via as expressões de repúdio e de gozo. Aprendeu a não se intimidar com elas. O que sabiam eles da dor de perder o único homem que conhecera toda a vida, o seu companheiro, o seu amigo, o seu homem? Foram 60 anos de vida em comum! Manuel nem sempre tinha sido um bom marido, é certo. Nos primeiros anos de casamento chegava muitas vezes a casa com um pinguito a mais e não se controlava. Ela nunca o tinha deixado bater nos filhos. Preferia ser ela a receptora daquela raiva incontida, apesar de não a compreender. Júlia era uma mulher que aceitava, que se resignava. Não foi ensinada a pensar ou a questionar. Se o marido era assim, era assim que ela o aceitaria.
Com o passar dos anos, no entanto, Manuel mudara. Passou a ficar mais tempo em casa, deitava-se cedo e o álcool deixou de ser companhia frequente. A vida melhorou. Era até, às vezes, um pouco carinhoso com ela. Aos 75 anos, um cancro deixara-o preso a uma cama. Foram 6 árduos anos para Júlia. Com os filhos no estrangeiro, teve que cuidar ela própria do marido, sozinha. Fê-lo com desvelo e com amor, o melhor que sabia e as suas forças deixavam. Sabia que a morte o esperava brevemente, mas habituara-se a tê-lo ali, sempre ao seu lado. Passavam todo o dia e toda a noite naquele quarto. Viam televisão, falavam quando ele estava mais bem-disposto, ela lia-lhe as notícias do jornal da terra como conseguia, quase a soletrar, pois era a única forma de saberem ambos como iam as coisas fora daquelas paredes.
Mas o dia chegou. Júlia vestiu-o com o melhor fato que tinha, com os sapatos que só usara uma vez no casamento da filha mais nova e colocou-lhe entre os dedos um terço azul que tinha pedido à filha para comprar em Fátima e que tinha guardado para aquela ocasião. Antes de fecharem o caixão, pediu um momento. Aproximou-se, deu-lhe um beijo e fez-lhe uma festa com ternura na face. Quando voltou para casa, deitou-se na cama e chorou toda a noite. Aprendeu a chorar apenas à noite, quando ninguém a ouvia ou fazia comentários despropositados sobre uma dor que não compreendiam que existisse. De dia, permanecia firme, como se tudo fosse natural e nada a magoasse. Apenas a ida diária ao cemitério a desmascarava. Em 5 anos de luto, não havia um único dia que não tivesse ido ao cemitério. Gostava de ir ver se estava tudo bem, se as flores estavam viçosas, se a vela estava acesa. Naqueles dias de Inverno rigoroso ficava mais angustiada. Lembrava-se de um dia em que a neve era tão alta que tapava o portão do cemitério e que quase a fez desistir, mas com as suas mãozitas obstinadas e com a ajuda da bengala conseguiu afastar o suficiente para avançar. Tirando esses sustos, não se importava com a neve, sabia que naqueles dias seria a única que por ali vagueava e isso dava-lhe um estranho prazer. Gostava de estar sozinha naquele espaço. Ao chegar e ao regressar, cumpria sempre o ritual de beijar a fotografia do homem que aprendera a amar e de quem tinha agora tantas saudades. Esperava pacientemente pelo dia em que se juntaria a ele. Dentro de si, sentia que esse dia estava próximo.

7.3.10

Liberdade

Fotografia: Getty Images

A chave rodou na fechadura. Na rua, escura e deserta, apenas aquele ruído do metal velho e enferrujado fez estremecer o silêncio. Um dos gatos vizinhos passou-lhe rente às pernas, assustado com a inesperada alteração da calma que vestia a noite. Margarida continuava parada em frente à porta que fechava para sempre. Uma chuva miudinha molhava-lhe o cabelo e o rosto e colava-se ao casaco de malha branco que usava sempre nas noites frias do Inverno que parecia não ter fim. Não havia lágrimas no seu olhar, apenas um vazio a que se habituara e com o qual travara uma batalha inglória, ele instalara-se definitivamente sem que ela se conseguisse salvar. Das mãos pendia uma velha mala de cartão, daquelas que já ninguém usa agora. Lá dentro apenas a Bíblia que recebera das mãos de sua mãe e as caixinhas de música que coleccionava desde menina e que gostava de pôr a tocar quando tudo já dormia.
Rodou novamente a chave. Duas voltas e estava trancada para sempre. Margarida sabia que não voltaria ali. Por trás daquela porta pesada ficavam memórias que queria apagar. Virou-se e olhou pela última vez aquela rua. Nas janelas havia luzes que se habituou a conhecer. Gostava de imaginar histórias para cada uma daquelas janelas, de acordo com as personagens que apenas conhecia do dia-a-dia de uma rua como tantas outras. Sabia que por detrás daquelas luzes havia muitas histórias tristes, de solidão, de sofrimento, de violência, de doença até. Mas Margarida imaginava para cada uma daquelas pessoas as histórias mais bonitas e mais mágicas que a sua imaginação conseguia arquitectar. Isso dava-lhe um certo conforto, para conseguir voltar a ter esperança no ser humano e num mundo melhor, e era assim muitas noites, com o som encantado das caixinhas de música e com as histórias que inventava para si mesma, que Margarida conseguia adormecer e voltar a sonhar.
Atrás de si, a porta guardava todo o peso que durante tanto tempo a atormentou. Margarida sorriu e caminhou à chuva enquanto olhava as luzes nas janelas. Sentia-se livre. Pela primeira vez em tantos anos, sentia-se livre.

2.3.10

Não sei dizer

Fotografia: Sonja Valentina

Miguel caminhava de um lado para o outro na sala, inquieto. Sentia-se vazio, as palavras fugiam-lhe, as ideias tropeçavam umas nas outras, a ansiedade tomava-lhe o peito e dificultava-lhe a respiração. Na secretária envelhecida que herdara do avô, aguardava-o a também velhinha máquina de escrever que comprara numa das inúmeras viagens a Paris e que era, mais do que um objecto, uma companheira de vida e das noites sem sono. Miguel tinha já escrito milhares de páginas naquela máquina. Havia algo nela que o inspirava. Nunca conseguia escrever no computador, havia uma espécie de barreira que o inibia, mas mal tocava nas velhas teclas as palavras nasciam em catadupa. Escrevera nela cada um dos seus livros e era com ela que partilhava a angústia do sucesso. Para todos os outros, o sucesso de vendas era motivo de felicidade, para ele era de angústia. Não conseguia compreender como é que alguém podia gostar ou admirar o que escrevia. Pensava muitas vezes se das pessoas que o liam alguém verdadeiramente o compreendia ou entendia o que estava por detrás das palavras gravadas no papel. Ele era muito mais do que as palavras que escrevia. Era tudo e nada daquilo ao mesmo tempo. Mas escrevia sempre como se a morte o aguardasse na próxima esquina da vida. Passava horas e horas intermináveis sentado àquela secretária. Esquecia-se muitas vezes de comer, de dormir, de fazer a barba, de viver. Escrevia como se as palavras fossem a própria respiração. Agora, diante da velha companheira, pela primeira vez na vida sentia que não sabia o que escrever. Precisava escrever uma carta. Não se lembrava de o ter feito. Aliás, nunca o tinha feito. Não uma carta como esta. Não sabia escrever o que não queria dizer, o que não sentia. Uma única palavra seria o suficiente, era tudo o que ela esperava. Acabou. Porque não conseguia escrever? Os dedos desenhavam sobre as teclas os contornos daquela única palavra. Seria tão fácil escrevê-la!... Uma raiva que não conhecia atirou-o contra a parede. Se não tivesse partido o espelho teria partido a máquina. Acendeu um cigarro. Foi até à janela olhar o rio, sempre presente, confidente das angústias e dos medos, cúmplice das horas infindáveis de silêncio e solidão. Um fio de sangue escorria-lhe pela mão e cravava-se na madeira do parapeito onde se apoiava. Não sabia nem podia dizer o que não queria. A folha continuava em branco. Nunca conseguiria escrever aquela carta.

1.3.10

Cumplicidade

Fotografia: Sonja Valentina

Caminhavam lado a lado, em silêncio, numa rua deserta de uma cidade adormecida. Os passos na calçada eram o único ruído que cortava a noite. Subitamente, uma luz quente que nasce duma janela chama a atenção. A música começa aos poucos a invadir o ar. É uma melodia doce, lenta, intemporal. Sem perceberem porquê, ambos param e viram o olhar para a janela. Logo a seguir, timidamente, os olhares encontram-se no escuro. Sem uma única palavra, ele estende-lhe a mão. Ela segura-a um pouco a medo e os corpos aproximam-se calmamente, com uma cumplicidade invulgar. A mão dele nas costas dela provoca-lhe um calafrio inesperado. Quem dera que ele não percebesse como o seu coração bate descompassado. Mas ele já o ouvia enquanto caminhavam lado a lado, sem ainda sequer se tocarem. Dançam. Aos poucos, o corpo relaxa, solta-se, fica leve, tão leve que não sentem o chão. A cabeça dela descai, o seu rosto toca o dele e deixa-se ficar. Ele sente agora todas as formas do corpo dela envolvidas no seu, um encaixe perfeito, como se fossem duas peças de um puzzle que andassem perdidas e se tivessem encontrado ao fim de uma vida. No silêncio da noite, apenas se ouvem a música e a respiração quente no pescoço. Dançam. Dançam como se não houvesse amanhã, como se o mundo inteiro fosse só aquele instante e a seguir tudo se desvanecesse. Nem sequer repararam que entretanto a janela se fechou e a música morreu. Amanhece. Dançam ao som do coração, ao som do amor.

25.2.10

Aniversário

Fotografia: Newton Bruno

24 de Fevereiro de 1923. Nesse dia de felicidade profunda para os meus pais, estava longe de imaginar que o meu destino seria este. Hoje faço 87 anos e aqui estou, nesta cama velha num quarto frio de uma casa vazia. Ninguém me vai telefonar nem fazer uma visita, não receberei flores nem me cantarão os parabéns em frente de um bolo colorido com velas a arder. Será um dia igual aos outros, apenas mais um, a juntar a todos os outros desta já minha longa existência. Tão longa que às vezes me interrogo para quê.
Gostava de poder beijar o meu filho, se ele se lembrasse do dia de hoje… se ele se lembrasse de mim… Eu bem sei que a vida é acelerada, muito mais do que quando eu tinha a sua idade, em que estava sempre por casa e podia acompanhar o meu marido, os meus pais e o meu filho com tempo, um tempo que já não há hoje, mas a viagem até aqui não demora assim tanto, podia vir passar um fim-de-semana e até apanhava este ar puro que só no campo se respira… se ao menos lhe pudesse dizer que o amo mesmo quando ele não telefona, nem se lembra do meu aniversário!... que estou e estarei aqui sempre, como quando em pequenino brincava sozinho no jardim e eu o olhava da janela da cozinha sem que se apercebesse, para pensar que já era muito crescido e podia estar sozinho… como ficava vaidoso por eu o deixar sentir independente!... O amor com que eu o olhava é o mesmo amor que lhe tenho agora, mesmo que já não me afague os cabelos compridos, de que tanto gostava. Costumava dizer “mamã, os teus cabelos são feitos de seda”, e passava a mãozinha no meu rosto enquanto encaixava a sua cabecita no meu ombro. Nunca deixei que me cortassem os cabelos na esperança de sentir de novo esse afago. Que me cortem os pulsos, mas o cabelo nunca!
Gostava de lhe dizer que as roseiras precisam de ser podadas, pois este ano já não consigo, os meus braços já não têm a mesma força que o meu amor de mãe. O que tenho mais saudades desta casa é de ver as roseiras brancas em flor, a ladear o caminho até à porta de entrada. Talvez… se eu telefonasse, talvez ele viesse no próximo Sábado. Vou-lhe pedir para trazer os meninos, que não me lembro de os ver, já nem os devo conhecer passados estes anos todos. Podia-lhes contar aquela história que ele adorava quando era da idade deles, aquela, do burrinho que estava cansado de ser burro, ou então cantar-lhes uma das canções que a minha mãe me ensinou.
- Estou, quem fala?
- Filho, sou eu.
- Desculpe, mas deve ser engano. Com licença.
Continuo com o auscultador vazio de palavras colado ao ouvido. Não consigo desligar. Talvez ainda me ouça. Filho, sou eu, a tua mãe.

24.2.10

À hora marcada

Fotografia: waysbcn

O quarto de hotel cheirava a mofo, a humidade escorria pelo papel de parede. O ar era pesado e as cortinas estavam marcadas pelo pó que ao longo dos anos se foi acumulando no tecido outrora imaculado. Mariana e Carlos trabalhavam na fábrica dos sapatos e eram ambos humildes, o dinheiro que ganhavam ao fim do mês mal dava para pagar as contas, quanto mais um bom hotel. Deitado sobre os lençóis, o corpo de Mariana repousava, exausto, limpo, perfeito. Carlos olhava-a na penumbra, enquanto cumpria o ritual de fumar um cigarro. Tinha uma mística especial aquele lugar, apesar da aparente vulgaridade. De olhos semicerrados, Mariana gostava de sentir a mão de Carlos deslizar vagarosamente pelo seu ombro, percorrendo de seguida todo o braço até à palma da mão e fazendo novamente o sentido inverso. Tantas vezes se amaram que conheciam de cor o corpo um do outro. O cheiro, o sabor salgado e húmido, o calor, a reacção de cada músculo ao mais leve toque. Os sons, os gemidos, as palavras que sempre sussurravam no silêncio do mesmo olhar. Gostavam de se conhecer, preferiam esse conforto que lhes permitia sempre descobrirem-se ainda mais do que pensavam ser possível à intempestuosidade dos primeiros encontros.
Mariana levantou-se, em silêncio, como sempre fazia. O relógio da Igreja batia as seis horas. Estava na hora. Lentamente, de olhar fechado, dirigiu-se ao cabide e vestiu a combinação branca que trazia todas as segundas-feiras.

23.2.10

De partida

Fotografia: ablok

Com o passar dos anos, a velha árvore deitava-se cada vez mais sobre o lago, como se o quisesse beijar com aquela ternura própria dos velhos companheiros de jornada. Mary sentava-se no mesmo sítio onde há 30 anos ela e José haviam dado o primeiro beijo, precisamente numa tarde triste de Inverno, aquecida pelo calor da paixão que os unira e não mais os largara. O som da chuva nas águas imóveis do lago cortava o silêncio que agora a rodeava. Mary revia as imagens de felicidade que tinha vivido naquele lugar.
Quando fugiu para ali para esquecer um amor que apenas lhe trouxe sofrimento, a última coisa que pretendia era apaixonar-se. Sem imaginar, a vida trocava-lhe as voltas, como sempre gosta de fazer com os corações amargurados, e, três meses depois, Mary e José amavam-se numa noite de lua cheia num barco a remos embalado pelo doce e suave ritmo do seu amor. Não mais se separaram. Juntos, correram o mundo, construíram uma casa à beira do lago que os uniu, partilharam sonhos e projectos de vida, que concretizaram com o apoio um do outro. Agora, Mary sentava-se sozinha na velha árvore que apodrecia com o tempo. José tinha partido há dois meses sem se ter despedido. Jazia no chão da sala ao entardecer, com a luz ténue do sol que desmaiava a incidir no olhar vazio que ela não conhecia. O olhar vivo que ela sempre amara não mais a olharia enquanto passeavam de mãos dadas por entre o pinhal e pisavam a caruma molhada nos dias de chuva. A viagem tinha acabado ali, sem ruído, sem sangue, sem aviso, no frio e estúpido chão de uma sala cheia de memórias que agora não eram mais do que fantasmas.
Mary contemplava imperturbável o lago e planeava a partida. Já não pertencia ali.

22.2.10

Dos olhares nascem olhares

O mundo da blogosfera tem destas coisas. Muitas vezes encontramos pessoas com quem nos identificamos ou cujo trabalho é especial. Uma das pessoas que encontrei recentemente e que se encaixa neste "perfil" é a Sonja Valentina. Cheguei até ao seu blog por outro que visito diariamente e de que gosto muito também. Foi amor à primeira vista. Gosto imenso de fotografia e fiquei encantada com o trabalho da Sonja e com aquilo que me transmite. É como se sentisse que o meu olhar vê o que o dela vê, é estranho talvez, mas não sei explicar melhor. Para além disso, tem sido de uma grande simpatia e disponibilidade, o que é raro nos dias de hoje. E, por acaso, através do blog dela fui parar a outro onde o autor escreve textos a partir de imagens. Achei piada à ideia e senti vontade de fazer o mesmo. Muitas vezes, olho para uma fotografia e mentalmente imagino uma história, por isso, porque não passá-la para o papel? Foi assim que surgiu o poema que escrevi ontem e esta primeira "história", se é que lhe posso chamar assim, sem qualquer compromisso de continuar, até porque nem sempre tenho vontade de escrever. Foi, para já, uma experiência.