Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

17.4.10

Projecto...



...de vida...

Quando se ama o que se faz e se encontra o sentido para a vida, tudo à volta se transforma e o mundo pode mesmo mudar! A magia e a poesia acontecem das formas e nos locais mais improváveis... Comovente, inspirador, uma prova de amor pelos livros, mas, acima de tudo, pelas pessoas que os lêem e que, graças a essa leitura, podem viajar por todos os mundos que nunca vão conhecer a não ser dessa forma!...

26.3.10

Lama

O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas em volta, no meio da lama? Há quem se aproxime para o ajudar, quem apanhe as imagens mais sujas e lhas devolva limpando-as com a ponta do casaco. Mas, uma a uma, ele volta a colocá-las onde estavam, tão meticulosamente como se as dispusesse num desses tabuleiros que usa para a revelação dos negativos. E, esfregando-as contra as pedras da rua, desenha mais sulcos no papel fotográfico - riscos, manchas negras. «As belas fotografias», digo-lhe, desolada, enquanto procuro salvar ainda as menos atingidas. «Manchadas, estragadas. Porquê tudo isto? Eram tão leves as tuas nuvens, foram tão demoradas de fotografar na exacta medida de luz e de sombra». Molhado até aos ossos, o fotógrafo celeste parece estranhamente feliz com a sua obra. «Agora estão certas», diz. «Continuam tão belas quanto eram, mas têm também aquela margem de lixo e de desordem sem a qual nada pode ser verdadeiramente deste mundo».

Rosa Maria Martelo, in "A Porta de Duchamp"

19.3.10

Sonho...


...simples de uma tarde de Verão...

Guardar

- Quer que eu limpe o pó aos livros?
Onze da manhã, e Marijana parece ter esgotado as suas tarefas.
- Está bem, se quiser. Pode passar-lhes o aspirador por cima com aquele acessório do bocal.
Ela abana a cabeça.
- Não, eu limpo-os bem. Você é guardador de livros, não quer pó em livros. É guardador de livros, sim?
Um guardador de livros: será isso que chamam às pessoas como ele na Croácia? Que poderá isso significar, guardador de livros? Um homem que guarda os livros do esquecimento? Um homem que se apega a livros que nunca lê? O seu escritório está forrado de alto a baixo de livros que nunca voltará a abrir, não porque eles não sejam merecedores de leitura, mas porque se lhe vão esgotar os dias.

J. M. Coetzee, in "O Homem Lento"

26.2.10

Sombras


Neste jardim acabam todas as viagens. Estou sentada na ponta do banco onde nos sentávamos em sonhos. Sinto nos dedos a madeira, os caminhos que insectos percorreram enquanto roíam o nosso passado, sinto a madeira que apodreceu. Avanço lentamente com o olhar sobre este banco, o infinito, avanço lentamente com o olhar e, como uma sombra, debaixo do tempo, vejo-te. Não sei se este rosto és tu ou a imagem de ti na minha memória. Vejo-te. Não sei se te vejo. A luz escurece e essa é a cor do tempo a passar. Os meus cabelos negros. O meu vestido negro. Na terra, nas ervas, nas árvores, o negro cobre superfícies cada vez maiores. A noite chega lentamente e estende-se sobre as coisas em pequenas poças de negro. E o negro absoluto do meu vestido escurece ainda mais. Os meus cabelos longos e negros escurecem. A tua pele é tão branca e, como o céu, anoitece devagar. Há uma brisa que passa pelo céu e pela tua pele. Dentro dos teus olhos, há o brilho de onde nascem as respostas, mas não vou perguntar-te nada. Tenho medo de que a minha voz te faça desaparecer de novo. O silêncio é atravessado pelos nossos olhares. O silêncio é o lugar onde os nossos olhares se encontram. Não vou perguntar-te nada.
A noite chega aos teus olhos, às tuas mãos. Sombras de passos. Sei que não conseguirei imaginar estrelas se olhar para este céu negro. Este céu que tem o tamanho do meu peito em todas as vezes que entrei nele para te procurar. Em vez disso, continuo a olhar para os teus olhos. Antes de anoitecer completamente, o mundo lança os últimos sons fúnebres do dia. Anoitece completamente. O som do mundo a existir, como um coro de silêncios. Para onde quer que olhemos, dentro e fora de nós, apenas a escuridão. Deixo de ver-te como deixo de ver a terra, as árvores ou o jardim. O mundo é todo da cor dos meus cabelos. Agora, neste momento que parou para sempre, poderia estender a minha mão devagar e, muito, muito devagar, podia levá-la ao encontro da tua, podia tocar a pele da tua mão. Agora, podia dizer uma palavra, podia dizer o teu nome como se caminhasse numa rua e perdesse uma flor. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Não sei se o rosto, o olhar, o brilho, que vi eras tu, se era a imagem de ti na minha memória. Na última luz, vi-te. Não sei se te vi. Imóvel. Em silêncio. Tenho medo de que não estejas aqui, neste banco negro, ao meu lado, dentro desta escuridão onde também estou. Mas eu sei que estás aqui. Se quisesse, podia dar-te a mão. Se quisesse, podia dizer o teu nome. Mas eu não sei se estás aqui. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Cheguei para sempre a este jardim e quero que esta noite negra continue para sempre e que nunca tenha de saber se este rosto, aqui, ao meu lado, dentro da escuridão, és tu ou a imagem de ti nesta memória que está aqui ou que sonha que está aqui.

José Luís Peixoto, in "Antídoto"

22.2.10

Loneliness

Fotografia: Joël Le Montagner

Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?

Haruki Murakami, in "Sputnik, Meu Amor"

19.2.10

Livros, mulheres e o medo que suscita(va)m


Há uns meses, na sala de espera de um consultório médico folheava uma daquelas revistas femininas que achamos que nada nos vai mostrar de novo, quando ainda por cima já era de há dois anos atrás. O título de um livro despertou-me a atenção e não descansei enquanto não o tive comigo. "Mulheres que lêem são perigosas" é um livro delicioso, com imagens belíssimas sobre a relação das mulheres com o mundo fascinante da leitura. Stefan Bollmann leva-nos numa viagem empolgante pela história da leitura desde o século XIII até ao século XXI. "O motivo da mulher que lê fascinou artistas ao longo de todas as épocas. No entanto, até ser permitido às mulheres ler aquilo que elas bem entendessem, passar-se-iam bastantes séculos. Primeiro que tudo, deveriam bordar, rezar, cuidar dos filhos e cozinhar. Contudo, no preciso momento em que se aperceberam da leitura como uma possibilidade de trocar o estreito mundo do lar pelo ilimitado universo das ideias, da fantasia, e também do conhecimento, passaram a constituir uma ameaça". Para quem, como eu, é mulher e tem uma relação tão forte com os livros, este livro é uma aprendizagem sobre esse privilégio e um deleite. É impossível escolher uma só imagem de tantas tão bonitas e tocantes, tal como é imperativo ler e reler com calma todas as linhas dos textos que as acompanham.
Deixo-vos dois bocadinhos do prefácio divertido e provocatório escrito por Elke Heidenreich:

"Nas fogueiras da Inquisição arderam sobretudo mulheres e livros. Proporcionalmente, a quantidade de homens que delas foram vítimas foi bastante reduzida. No entanto, as mulheres que sabiam ler e escrever, que soubessem fosse o que fosse, e os livros, onde estivesse contido algum conhecimento, eram ambos considerados perigosos."

"Da leitura resulta a autoconfiança, da autoconfiança resulta a coragem de ter ideias próprias. Os homens não gostam necessariamente de mulheres que lêem. «Não é ao nível do cérebro», escreve Gottfried Benn numa carta, «que os homens pretendem ser estimulados por uma mulher, mas noutro lugar bem diferente.» Ora aí está. Nós sabemo-lo e apesar disso continuamos a ler. Com o passar dos anos, os livros tornam-se por vezes até mais importantes que os homens. Queremos que o nosso coração seja estimulado. Os autores literários conseguem-no."

Imagem: Rapariga a Ler, de Franz Eybl

16.2.10

Histórias de e para a vida

Quase a acabar as mudanças, é tempo de arrumar coisas que não sei porque guardo, mas das quais não me consigo desfazer. É incrível como ao longo do tempo vamos acumulando tanta coisa! Lixo, dirão alguns, mas para mim esse "lixo" representa a memória. Como tenho uma péssima memória desde sempre (não, não tem só a ver com a idade...), tudo o que guardo me ajuda mais tarde a reconstruir histórias que de outro modo seriam definitivamente apagadas. Por isso é que sempre que decido mudar ou arrumar alguma coisa demoro imenso tempo, porque me perco nesses caminhos da minha memória, seguindo as pistas que vou deixando em gavetas, dentro de livros, de carteiras ou de caixas de todos os feitios e tamanhos.
Foi assim hoje. Ao abrir um dos armários de casa da minha mãe, que não devia abrir há anos, dei de caras com os meus livros da infância. Entre "As Histórias do Avôzinho", a colecção "Serelepe e Sapeca" e tantos outros, guardados como um tesouro estavam os livros da "Anita", os meus preferidos! Era completamente doida por estes livros e tinha a colecção quase toda. Adorava as ilustrações, as aventuras, os sonhos, os medos, tudo! Adorava ver a lista dos volumes publicados, no verso, e pedir à minha mãe os que ainda me faltavam. Devo ter lido cada um destes livros dezenas, senão centenas de vezes! Mas os que mais gostava eram "Anita e a Festa de Anos", o primeiro que tive e porque sonhava ter uma festa de anos como aquela, que nunca tive, claro, porque festas assim só nos livros ou para meninas ricas, e "Anita no Jardim", por causa das flores, do regato com nenúfares, do Pantufa a rebolar na relva... Aquele jardim era mágico! Com todas estas recordações, deixei-me ficar sentada no tapete, a reler e a sorrir novamente com as histórias que faziam parte do meu imaginário enquanto criança. Percebi que os livros nos podem influenciar e marcar a nossa personalidade de uma forma impressionante. Li recentemente "Os Livros que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz, um livro destinado a um público juvenil, mas que me cativou pelo título, e fiquei a pensar que também eu, em muitas alturas da minha vida, me senti devorada por alguns livros, no sentido em que me impressionaram de tal forma que me senti dentro deles, a viver aquela história como se de uma personagem me tratasse ou a imaginar que aquela seria a minha realidade e não apenas uma fantasia. Isso prejudicou-me muito, em alguns momentos, mas percebo agora que faz parte de mim e que, provavelmente, sempre serei assim, apesar de ter agora uma consciência diferente desta situação. O viver entre e dentro de histórias dá-nos também, curiosamente, uma perspicácia e uma sensibilidade diferente para entender a realidade, porque as histórias são, nem mais nem menos, que essa mesma realidade, embora figurada. É curioso ver como alguns pontos se ligam e percebemos de onde nos vêm determinados traços de personalidade que muitas vezes não entendemos. E tudo por causa dos livros infantis... da Anita! :)

31.1.10

Um tesouro

A paixão por livros infantis tem-me feito descobrir pequenas grandes maravilhas. Este, no entanto, não é um livro apenas para crianças, mas sim para todas as idades. "O Livro Negro das Cores" leva-nos a redescobrir o mundo através de palavras simples, mas cheias de poesia e de desenhos em relevo nas folhas completamente negras, mas que nos mostram todas as cores, cheiros e sabores que conhecemos. Um livro para crianças e pessoas invisuais, mas que é obrigatório para todos! Muitas vezes, por sermos capazes de ver, deixamos de usar os outros sentidos com a mesma intensidade, mas a verdade é que todos nos trazem sensações e emoções diferentes. Vale a pena aprender a ver também com as mãos!

21.12.09

Livros especiais


O meu livro novo, sobre a "minha" Sophia, que nunca é demais recordar...


ESCUTO


Escuto mas não sei
se o que ouço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
é olhado amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.


Sophia de Mello Breyner, in "Geografia"

19.12.09

Encontro


Ainda em mudanças, encontrei hoje dentro de uma gaveta(!) um pequeno livro com pensamentos de Khalil Gibran, que adquiri há muitos anos atrás. Um pequenino milagre!...



«Dizem-me no seu despertar: "Tu e o mundo em que vives não são
mais do que um grão de areia na praia de um mar infinito."
Eu no meu sonho digo-lhes: "Sou o mar infinito, e todos os mundos
não são mais do que grãos de areia na minha praia."»

Khalil Gibran, in "Areia e Espuma"

14.12.09

Ler (também) é recordar

Estou a adorar o livro que comecei ontem a ler! Cada página é uma descoberta cheia de emoção e ternura. Deixo um bocadinho, para aguçar a curiosidade...

"O toque da sua mão permaneceu sempre vivo na minha memória. Era uma sensação diferente de tudo o que eu até então experimentara, e mesmo depois disso. Tratava-se, pura e simplesmente, da mão pequena e quente de uma rapariguinha de doze anos. E, contudo, aqueles cinco dedos e a palma daquela mão continham, tal como uma caixinha de amostras, tudo o que eu queria saber acerca da vida - e tudo o que havia a saber. E ela, ao pegar na minha mão, teve o condão de me ensinar todos os segredos. Ajudou-me a compreender que no mundo real existia um lugar como aquele. Durante dez segundos, tive a sensação de me ter transformado num passarinho perfeito, capaz de voar no céu, ao sabor dos ventos. Lá do alto, alcançava as paisagens longínquas, tão distantes que não era capaz de distinguir com nitidez as coisas que havia para ver, apesar de saber que existiam. Ao mesmo tempo, sabia que um dia viajaria até essas paragens. Uma tal certeza deixou-me sem fôlego e provocou um tremor no meu peito."

Haruki Murakami, in "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol"

19.11.09

Livros e liberdade

Hoje comprei um livro na Feira do Livro da Escola. Ao abri-lo, li e achei curioso, porque me fez pensar em todas as polémicas levantadas em torno da edição de alguns livros...

"Os livros são tão livres
como os mais livres de nós
e por isso há quem receie
que os livros ganhem voz
e venham para o meio da rua
com a verdade nua e crua
do que têm para dizer.
E o que têm para dizer
é, no fundo, a liberdade
que o escritor tem ao escrever."

José Jorge Letria, in "Ler Doce Ler"

21.10.09

A ler...

Quem acompanha este espaço já sabe que sou uma apaixonada pela escrita de José Luís Peixoto. Há algum tempo que tinha o "Cemitério de Pianos" na estante, à espera do momento certo para ser lido. Porque há momentos certos para ler alguns livros, sobretudo aqueles que pressentimos que são especiais e que mexem com aquilo que somos e sentimos. Ainda não li muitas páginas, mas, não fosse o cansaço, já o tinha devorado, ou melhor, saboreado. É sempre uma escrita mágica, intensa, que respira ternura e poesia através de cada uma das palavras. É a minha companhia nestas noites frias, em que a chuva bate nos vidros e nos faz ir ao baú fazer as pazes com o velho e aconchegante cobertor.

18.10.09

O coração pode sempre ter abrigo

Os livros infantis de José Jorge Letria chamam-me sempre a atenção, são absolutamente deliciosos e, quase sempre, se aplicam a qualquer idade. Por isso, quando há dias vi esta nova obra, não resisti a lê-la. Na voz de um sem-abrigo, este livro retrata os seus dias vividos na rua, depois de ter decidido "passar a ponte" para uma vida sem ligação ao mundo "normal". Nessa vida, há um ser que ocupa o lugar principal do seu coração: Lobito, o cão amigo que o acompanha sempre e o liga ao mundo dos afectos, afastando-o um pouco da total solidão. É uma história triste, mas bonita, que nos faz pensar nas relações humanas de uma forma mais relativa. Muitas vezes, um animal pode ser a única companhia que dá um sentido à vida.

"Não, não estou a chorar. Foi uma folha seca arrastada pelo vento que me bateu no olho e o deixou vermelho e a arder. Tu sabes que um sem-abrigo não chora. Porquê? Porque deixou o saco das lágrimas do outro lado da ponte, antes de fazer a grande e definitiva travessia. Há coisas que é tempo de aprenderes."

José Jorge Letria, in "Coração sem Abrigo"

12.10.09

Inseparável

Não tive tempo para comprar uma prenda, por isso resolvi oferecer um dos livros mais especiais para mim. Mas a saudade foi tão grande que, hoje, não consegui aguentar e fui a correr a uma livraria comprá-lo, para o poder ter novamente comigo. Não posso mesmo separar-me dos meus livros! O alívio e felicidade foram tão grandes que partilho aqui um dos poemas. Não posso dizer que é o mais bonito, porque acho-os todos, todos, lindíssimos! Vale a pena ler e voltar sempre, a qualquer hora do dia ou da noite, a estas páginas repletas de amor, vida e intensidade.


VERTIGEM

somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.



José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"