3.6.10
Incompreensão
2.5.10
24.4.10
Avô...
17.4.10
2.4.10
19.3.10
Único amor perfeito
José Luís Peixoto, in "Morreste-me"
1.3.10
Respirar
27.2.10
Estou...

...profundamente abalada. Quero, simplesmente, apagar este dia da minha memória. Logo hoje, que estava a fazer um workshop que aguardava há tanto tempo e que estava a pensar espairecer um pouco por outras paragens, mas a vida mostra-me cada vez mais que é assim mesmo, implacável, não escolhe horas nem dias para nos apanhar de surpresa. O medo de perdermos as pessoas que mais amamos é indescritível, a aflição dos segundos a passar sem notícias, a volta no estômago, a dor em todos os sítios do nosso corpo, a cabeça que parece explodir, o coração apertado, a sensação de não termos noção do que estamos a fazer ou do que se passa à nossa volta... Quero esquecer e não voltar a sentir o mesmo nunca mais de tão doloroso que é. Já senti muitas dores, mas como esta não há nenhuma, faz-nos esquecer tudo o resto por completo. Graças a Deus, dentro do mal posso dizer que está tudo bem, mas não respirar de alívio, porque a tensão ainda não deixa. Só quero tentar adormecer e amanhã acordar mais leve.
1.2.10
Que mundo é este?
Vi há pouco mais uma excelente reportagem da SIC, "Este país não é para velhos", e, apesar de todas as histórias que já ouvi dos idosos com que trabalhei e das ajudantes de lar a quem dei formação, é impossível não ficar chocada, revoltada, enojada com as (tristes) histórias ali contadas. Histórias de maus-tratos, de abandono, de desprezo, de maldade, de desumanidade. É impressionante como há pessoas que são capazes de tratar assim os próprios pais, batendo-lhes, negligenciando-os, roubando-os! Há dias alguém me dizia com um ar fatalista que sentia que o mundo caminhava para um beco sem saída, que algo de muito mal estava para acontecer. Talvez seja verdade, para onde caminha a humanidade, afinal? Cada vez há menos lares, na verdadeira acepção da palavra. Cada vez menos as famílias querem cuidar dos seus idosos em casa, no conforto do seu verdadeiro lar. Por isso, num momento em que o meu avô já não me reconhece, embora me sorria e me beije sempre, tenho orgulho na minha família, sobretudo no meu pai e no meu tio, que fazem tudo para o manter em casa e cuidar dele com todo o amor do mundo, mesmo que seja preciso repetir-lhe 20 vezes a mesma coisa. Tenho noção de que é raro e, por isso mesmo, os admiro e amo ainda mais por isso. Sei que ele não está connosco como estava, está agora num mundo que nós não conhecemos, mas sinto-o feliz, o que me reconforta, sobretudo quando penso que mundo é este em que vivo e onde acho que cada vez menos há espírito de família e de respeito pelo ser humano.3.1.10
Ano novo...
30.12.09
Medo e esperança
Há pouco recebi a visita da minha amiga Ana, que me trouxe estes peixinhos. Estava a precisar de vida cá em casa e, como não posso ter um cão ou um gato, adorei a ideia dos peixinhos! Só mesmo a Ana para se lembrar de me fazer rir assim! Os peixinhos já têm nome: D. Quixote e Dulcineia. Não sei bem se são macho ou fêmea porque não sei distinguir o sexo nos peixes... :) Mas achei por bem ser um casal, até porque eles parecem muito agitados e andam sempre juntinhos!
29.12.09
Cheirinho a bebé ao fim da tarde
25.12.09
Querido avô...
...faz esta noite um ano que nos deixaste. Sinto a tua falta mais do que nunca, sinto falta sobretudo da tua ternura, dos teus mimos, das palavras bonitas, das histórias... Tantas, tantas saudades, que a emoção não deixa dizer mais nada...
Estás sempre no meu coração!
12.9.09
Parabéns Papá e Avô!
Do meu pai e do meu avô Branco herdei sobretudo o culto pelo silêncio. Sempre me lembro do meu pai e do meu avô calados, mas sempre atentos e presentes. Utilizam poucas palavras, mas certeiras e incisivas. Demorei muito tempo a entender o silêncio de pai e filho, mas cada vez mais o admiro e sinto-o também como meu.
O meu pai e o meu avô, exemplos de responsabilidade, de trabalho e de sacrifício pela família. O meu pai e o meu avô.

AS MÃOS DO MEU PAI
As tuas mãos têm grossas veias
como cordas azuis
Sobre um fundo de manchas
já da cor da terra
Como são belas as tuas mãos
Pelo quanto lidaram, acariciaram
Ou fremiram
da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos
meu velho pai
Essa beleza que se chama
simplesmente vida.
E, ao entardecer,
quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predilecta,
Uma luz parece vir
de dentro delas...
Vira dessa chama
que pouco a pouco, longamente,
viste alimentando
na terrível solidão do mundo.
Como quem junta uns gravetos
e tenta acendê-los
Contra o vento.
Ah, como os fizeste arder,
fulgir, com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura as tuas mãos nodosas...
Essa chama de vida –
que transcende a própria vida...
e que os anjos,
um dia,
chamarão de alma...
Mário Quintana
30.8.09
Mãe...
Palavras para a Minha Mãe
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
...Desculpa mãe, mas "as minhas pernas cresceram"...




