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3.6.10

Incompreensão


A vida continua a pregar-me partidas. Sempre quando menos espero. Sempre duras. A pôr-me à prova. Em pleno momento de preparação de uma viagem especial, que começa amanhã e representa a concretização do sonho de uma vida, eis que o telefone toca, novamente para me sobressaltar. Ela não dá tréguas, não escolhe idades, credos ou contas bancárias. Parece que escolhe, apenas, as pessoas boas, aquelas que fazem tanta falta no mundo. Pelo menos no meu mundo. Hoje está difícil aceitar. Todas as mortes são dolorosas, mas há umas mais cruéis que outras. Há algumas que não fazem sentido, que nos fazem pôr tudo em causa, que nos fazem questionar. O que andamos aqui a fazer, afinal? Para quê viver se um dia, muitas vezes tão rápido, tudo se esvai sem podermos fazer nada? Para quê?!... Não consigo entender, não consigo encontrar respostas. Sei apenas que há mais uma pessoa que (re)encontrarei um dia e a quem poderei, finalmente, dizer o quanto amo. Até sempre, primo Zé!

2.5.10

Mamã...


mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

24.4.10

Avô...


...hoje era o teu dia. Dia de alegria. De ti guardo a felicidade de fazer anos, de comemorar a vida, de não querer nunca morrer. Mas morreste, avô. E por muito que eu saiba que estás comigo, de outra forma, não estás aqui, não te posso abraçar e encher de beijos, não te posso ouvir nem dizer que és o melhor avô que eu poderia ter. E isso dói, dói tanto, tanto, avô. Dói agora mais do que nunca. Às vezes, quanto mais tempo passa, mais parece que te sinto a falta. Às vezes ainda sinto o teu cheiro, o teu cabelo fino e suave, as tuas mãos fortes, apesar das rugas. Ainda tenho vontade de entrar a correr em tua casa, a chamar o teu nome e a ouvir-te responder-me. Ainda vejo o teu profundo olhar azul no meu, ainda ouço a tua voz a dizer-me o que nunca mais ninguém me dirá e que eu precisava tanto de ouvir. E hoje, mais do que nunca, sinto a tua falta, avô. Sinto demais a tua falta.

17.4.10

Casa...

...da saudade...

"aqueles que, pela sua palavra, hão-de crer em mim
partiram para muito longe, o tempo continuou nos
ramos mais altos das árvores, como um céu triste."

José Luís Peixoto

2.4.10

Desejo...

...a todos uma Páscoa feliz!

19.3.10

Único amor perfeito


Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não se aflija, pai. Sou forte nesta terra e nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo o mundo que foi nosso. Vou mesmo, pai. O mundo solar. Reconhecê-lo-ei, porque não o esqueci. E também o tempo será de novo, e também a vida. Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te, rapaz. Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. E vou.

José Luís Peixoto, in "Morreste-me"
...Ao meu pai...
...Ao meu avô, que foi pai...
...A todos os pais, raízes eternas de ternura na vida dos seus filhos.

1.3.10

Respirar

Já mais calma, quero agradecer a todos os que me enviaram mensagens de apoio e de carinho. Posso dizer que o meu irmão está bem, apesar do susto e da aflição de ontem. Hoje já estamos mais calmos, dentro do possível, e graças a Deus há-de ficar tudo bem. Quem me conhece sabe que sou uma irmã "leoa", por isso o meu desespero de ontem. Hoje ouvi muito boa música, fechei-me na cozinha e fiz uma massa espectacular, comi por ontem e por hoje, vi o "Cinema Paraíso", o filme mais lindo de sempre, e chorei imenso, por isso já estou melhor. O tempo cura todas as feridas, embora não faça esquecer o que as abre. Como canta Sinatra, that's life. Envio de coração cada uma das minhas tulipas, que estão tão bonitas, a todos os que estiveram comigo nos momentos mais angustiantes. Obrigada!

27.2.10

Estou...


...profundamente abalada. Quero, simplesmente, apagar este dia da minha memória. Logo hoje, que estava a fazer um workshop que aguardava há tanto tempo e que estava a pensar espairecer um pouco por outras paragens, mas a vida mostra-me cada vez mais que é assim mesmo, implacável, não escolhe horas nem dias para nos apanhar de surpresa. O medo de perdermos as pessoas que mais amamos é indescritível, a aflição dos segundos a passar sem notícias, a volta no estômago, a dor em todos os sítios do nosso corpo, a cabeça que parece explodir, o coração apertado, a sensação de não termos noção do que estamos a fazer ou do que se passa à nossa volta... Quero esquecer e não voltar a sentir o mesmo nunca mais de tão doloroso que é. Já senti muitas dores, mas como esta não há nenhuma, faz-nos esquecer tudo o resto por completo. Graças a Deus, dentro do mal posso dizer que está tudo bem, mas não respirar de alívio, porque a tensão ainda não deixa. Só quero tentar adormecer e amanhã acordar mais leve.

1.2.10

Que mundo é este?

Vi há pouco mais uma excelente reportagem da SIC, "Este país não é para velhos", e, apesar de todas as histórias que já ouvi dos idosos com que trabalhei e das ajudantes de lar a quem dei formação, é impossível não ficar chocada, revoltada, enojada com as (tristes) histórias ali contadas. Histórias de maus-tratos, de abandono, de desprezo, de maldade, de desumanidade. É impressionante como há pessoas que são capazes de tratar assim os próprios pais, batendo-lhes, negligenciando-os, roubando-os! Há dias alguém me dizia com um ar fatalista que sentia que o mundo caminhava para um beco sem saída, que algo de muito mal estava para acontecer. Talvez seja verdade, para onde caminha a humanidade, afinal? Cada vez há menos lares, na verdadeira acepção da palavra. Cada vez menos as famílias querem cuidar dos seus idosos em casa, no conforto do seu verdadeiro lar. Por isso, num momento em que o meu avô já não me reconhece, embora me sorria e me beije sempre, tenho orgulho na minha família, sobretudo no meu pai e no meu tio, que fazem tudo para o manter em casa e cuidar dele com todo o amor do mundo, mesmo que seja preciso repetir-lhe 20 vezes a mesma coisa. Tenho noção de que é raro e, por isso mesmo, os admiro e amo ainda mais por isso. Sei que ele não está connosco como estava, está agora num mundo que nós não conhecemos, mas sinto-o feliz, o que me reconforta, sobretudo quando penso que mundo é este em que vivo e onde acho que cada vez menos há espírito de família e de respeito pelo ser humano.


3.1.10

Ano novo...

...vida nova? Sempre achei esta ideia uma ilusão, e é-o, de facto, pelo menos para mim. Nada muda por o número no calendário ser diferente. A vida que temos no dia 31 de Dezembro é transportada para dia 1 de Janeiro, mesmo que nos apeteça (e tentemos) fechar os olhos com muita força, sorrir e dizer "está tudo bem...", como os nossos pais nos faziam quando tínhamos um sonho mau, em crianças. Mas abrimos os olhos e a nossa vida é a mesma, quando não pior, porque há acontecimentos que não escolhem datas nem se afugentam com festas. É, a vida é mesmo difícil, não há nada a fazer contra isso, apenas aproveitar cada momento feliz como se fosse o último, porque os maus arrasam-nos de tal maneira que nos fazem esquecer todos os outros. Ao contrário do que possa parecer, comecei o ano com esperança, mas o que fazemos quando tudo à nossa volta parece desabar, apesar da nossa vontade de resistir e de recuperar a capacidade de sonhar?...
Começo o ano com música e com a poesia de Vinicius, entre a tristeza da dureza e da inevitabilidade da vida e a esperança em dias mais felizes e povoados de sorrisos alegres.



30.12.09

Medo e esperança

Hoje comprei flores para alegrar a minha casa. Estava a precisar e a verdade é que um espaço com flores tem logo outra graça, outra luz. Parece que estava a pressentir que ia precisar desta energia positiva. Recebi a notícia ao fim do dia, o meu avô B. não está nada bem e, por isso, a noite hoje é de oração e de aperto no coração. Às vezes parece que tudo nos acontece e é difícil conseguir adormecer com o medo da perda a bater à porta. Queria conseguir estar mais perto, em todos os sentidos, e poder aliviar estas dores. Peço a Deus que o faça.

Há pouco recebi a visita da minha amiga Ana, que me trouxe estes peixinhos. Estava a precisar de vida cá em casa e, como não posso ter um cão ou um gato, adorei a ideia dos peixinhos! Só mesmo a Ana para se lembrar de me fazer rir assim! Os peixinhos já têm nome: D. Quixote e Dulcineia. Não sei bem se são macho ou fêmea porque não sei distinguir o sexo nos peixes... :) Mas achei por bem ser um casal, até porque eles parecem muito agitados e andam sempre juntinhos!

Foi muito bom passar a noite a conversar sobre a vida. Tinha muitas saudades de uma conversa assim e fez-me bem matar saudades e receber e dar colinho. Dar e receber afecto é das melhores coisas da vida, mesmo que por vezes nos sintamos tão impotentes para conseguir dar um pouco mais de felicidade a quem precisa. Amiga, muita força para ti também e obrigada, por tudo! E Londres espera por nós!... :) Melhores dias virão, para todas nós, que vivemos entre o medo e a esperança.

29.12.09

Cheirinho a bebé ao fim da tarde

Hoje fui visitar o bebé da minha amiga Gi, que está há uns anos no Luxemburgo e, por isso, raramente temos oportunidade de estarmos juntas. Ainda não conhecia o Zé Diego e estava ansiosa! Adorei sentir a mãozinha dele na minha, forte e suave, e o cheirinho a bebé, tão saboroso! A Gi é uma amiga muito especial dos tempos de escola, que conheci no secundário e com quem estabeleci uma relação muito forte, que se vem mantendo ao longo dos anos. Passámos juntas muitos momentos felizes, outros bastante difíceis, e é engraçado vê-la agora no papel de mãe. Faz-me pensar que já somos mulheres, que estamos a mudar, mas que nos mantemos fiéis ao que sempre fomos, apesar de todas estas mudanças. Apesar da distância, parece sempre que ainda ontem nos vimos, porque é sempre uma festa e nunca falta conversa. Admiro muito a minha amiga por tudo o que já passou na vida e pela capacidade que teve sempre para ultrapassar as dificuldades. É bom senti-la agora tão feliz e realizada. Foi um fim de tarde maravilhoso e estou ansiosa que chegue Agosto para nos podermos voltar a ver e para participar no baptizado do Zézito!

25.12.09

Querido avô...


...faz esta noite um ano que nos deixaste. Sinto a tua falta mais do que nunca, sinto falta sobretudo da tua ternura, dos teus mimos, das palavras bonitas, das histórias... Tantas, tantas saudades, que a emoção não deixa dizer mais nada...

Estás sempre no meu coração!

12.9.09

Parabéns Papá e Avô!

Hoje, o meu pai e o meu avô paterno fazem anos. Este sempre foi um dia especial, porque os aniversários eram comemorados a dobrar. Este ano torna-se ainda mais especial, porque é o nonagésimo aniversário do meu avô Branco!
Do meu pai e do meu avô Branco herdei sobretudo o culto pelo silêncio. Sempre me lembro do meu pai e do meu avô calados, mas sempre atentos e presentes. Utilizam poucas palavras, mas certeiras e incisivas. Demorei muito tempo a entender o silêncio de pai e filho, mas cada vez mais o admiro e sinto-o também como meu.
O meu pai e o meu avô, exemplos de responsabilidade, de trabalho e de sacrifício pela família. O meu pai e o meu avô.


AS MÃOS DO MEU PAI

As tuas mãos têm grossas veias
como cordas azuis

Sobre um fundo de manchas
já da cor da terra

Como são belas as tuas mãos
Pelo quanto lidaram, acariciaram
Ou fremiram
da nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos
meu velho pai
Essa beleza que se chama
simplesmente vida.

E, ao entardecer,
quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predilecta,
Uma luz parece vir
de dentro delas...

Vira dessa chama
que pouco a pouco, longamente,
viste alimentando
na terrível solidão do mundo.

Como quem junta uns gravetos
e tenta acendê-los
Contra o vento.

Ah, como os fizeste arder,
fulgir, com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura as tuas mãos nodosas...

Essa chama de vida –
que transcende a própria vida...

e que os anjos,
um dia,
chamarão de alma...


Mário Quintana

30.8.09

Mãe...

...Parabéns!...



Palavras para a Minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"



Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade


...Desculpa mãe, mas "as minhas pernas cresceram"...