
O caminho que faço todos os dias quando vou trabalhar é de uma beleza rara. Posso-me dar ao luxo de dizer que não há semáforos nem filas de trânsito, às vezes sou obrigada a parar, mas apenas para ver atravessar algum rebanho ou outros tipos de animais, sobretudo de noite, como ratinhos, lebres, raposas ou até javalis.
De dia, é maravilhoso ver o sol reflectir-se nas diferentes tonalidades de verde que vou descobrindo ao longo do caminho. Passo pelas vinhas, que vão mudando a cor da sua roupagem consoante as estações do ano, e pelos montes Melo e Gerumelo, que me fazem lembrar a
lenda ouvida desde pequenina e que, apesar de tão perto, nunca visitei o Castelo de Germanelo.
Vejo rostos marcados pela vida, mas sorridentes. As senhoras, de batas floridas e lenços no cabelo, seguem atarefadas na sua lida. Os homens sentam-se nos muros de pedra, a trocar conversas ou apenas a partilhar silêncios. Vejo sempre o mesmo idoso, sentado exactamente no mesmo sítio, a olhar espantado os carros que passam. Penso sempre quem será aquele senhor, que histórias teria para contar, no que pensa ao ver passar a vida à sua frente. Sentir-se-á triste? Sozinho? Tranquilo? Satisfeito com os anos que já viveu? À espera de alguma coisa que teima em não chegar?... Sigo, absorta nos meus pensamentos, mas com vontade de parar e conversar com ele.
Mais à frente vejo uma eira coberta de milho, a secar ao sol. Ontem, quando regressava para casa, estavam a fazer a descamisada, como se ali o tempo não tivesse passado e ainda se vivesse o "antigamente". Não posso deixar de me lembrar de como era simultaneamente estranho e divertido descalçar-me e fazer com os pés os carreirinhos no milho, estendido na eira da minha avó. Adorava fazer aquelas estradinhas e sentir o calor dos bagos de milho entre os dedos dos pés.
Continuo o meu caminho. A paisagem começa a mudar, entro na serra, com os típicos e lindíssimos carvalhos da serra de Sicó, os tradicionais moinhos de vento ao longe, no Outeiro, os pinheiros e os eucaliptos. Quando abro o vidro, o cheiro a terra e a ervas invade o carro e, com Ansião no horizonte, não posso deixar de me sentir uma privilegiada por ter acesso a esta dádiva logo pela manhã...