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19.6.10

À sombra de um embondeiro...


"Na viagem para África, porém, esse sonho rodopiou. Talvez tivesse esperado demaisado tempo. Nessa espera, aprendi a gostar de ter saudade. Recordo os versos do poeta que diziam «eu vim ao mundo para ter saudade». Como se apenas pela ausência eu me povoasse interiormente. Seguindo o exemplo dessas casas que só se sentem quando estão vazias. Como esta casa que agora habito."

Mia Couto, in "Jesusalém"

15.4.10

Tempestade(s)

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra."

Haruki Murakami, in "Kafka à Beira-Mar"

19.3.10

Guardar

- Quer que eu limpe o pó aos livros?
Onze da manhã, e Marijana parece ter esgotado as suas tarefas.
- Está bem, se quiser. Pode passar-lhes o aspirador por cima com aquele acessório do bocal.
Ela abana a cabeça.
- Não, eu limpo-os bem. Você é guardador de livros, não quer pó em livros. É guardador de livros, sim?
Um guardador de livros: será isso que chamam às pessoas como ele na Croácia? Que poderá isso significar, guardador de livros? Um homem que guarda os livros do esquecimento? Um homem que se apega a livros que nunca lê? O seu escritório está forrado de alto a baixo de livros que nunca voltará a abrir, não porque eles não sejam merecedores de leitura, mas porque se lhe vão esgotar os dias.

J. M. Coetzee, in "O Homem Lento"

16.3.10

Hoje...

...quero ler até adormecer de exaustão.

Culpa

Sorrow, de Van Gogh

"Mas desde cedo tomei esse gostar como um dado adquirido, um caso arrumado, como se o amor não fosse uma força dinâmica, não fosse todos os dias, não fosse todas as veias. Entendi isto muito mais tarde, no dia em que me apaixonei. Soube então que o amor é à chuva e ao vento, é descalço nas pedras, é perdido no mar, é rasgado nos espinhos, é na fome e na sede e na doença e na amargura e no silêncio. O amor é o corpo todo, a alma toda, a vida toda. E come-nos o coração e nós fazemos nascer outro coração no peito para que o amor o devore. Descobri isto, sim, mas estava tão ocupada a descobri-lo que não achei em mim espaço para emendar os meus erros. Ao contrário. Errei mais, cada vez mais, até chegar aqui, onde errar é já uma obstinação."

Rosa Lobato de Faria, in "O Sétimo Véu"

26.2.10

Sombras


Neste jardim acabam todas as viagens. Estou sentada na ponta do banco onde nos sentávamos em sonhos. Sinto nos dedos a madeira, os caminhos que insectos percorreram enquanto roíam o nosso passado, sinto a madeira que apodreceu. Avanço lentamente com o olhar sobre este banco, o infinito, avanço lentamente com o olhar e, como uma sombra, debaixo do tempo, vejo-te. Não sei se este rosto és tu ou a imagem de ti na minha memória. Vejo-te. Não sei se te vejo. A luz escurece e essa é a cor do tempo a passar. Os meus cabelos negros. O meu vestido negro. Na terra, nas ervas, nas árvores, o negro cobre superfícies cada vez maiores. A noite chega lentamente e estende-se sobre as coisas em pequenas poças de negro. E o negro absoluto do meu vestido escurece ainda mais. Os meus cabelos longos e negros escurecem. A tua pele é tão branca e, como o céu, anoitece devagar. Há uma brisa que passa pelo céu e pela tua pele. Dentro dos teus olhos, há o brilho de onde nascem as respostas, mas não vou perguntar-te nada. Tenho medo de que a minha voz te faça desaparecer de novo. O silêncio é atravessado pelos nossos olhares. O silêncio é o lugar onde os nossos olhares se encontram. Não vou perguntar-te nada.
A noite chega aos teus olhos, às tuas mãos. Sombras de passos. Sei que não conseguirei imaginar estrelas se olhar para este céu negro. Este céu que tem o tamanho do meu peito em todas as vezes que entrei nele para te procurar. Em vez disso, continuo a olhar para os teus olhos. Antes de anoitecer completamente, o mundo lança os últimos sons fúnebres do dia. Anoitece completamente. O som do mundo a existir, como um coro de silêncios. Para onde quer que olhemos, dentro e fora de nós, apenas a escuridão. Deixo de ver-te como deixo de ver a terra, as árvores ou o jardim. O mundo é todo da cor dos meus cabelos. Agora, neste momento que parou para sempre, poderia estender a minha mão devagar e, muito, muito devagar, podia levá-la ao encontro da tua, podia tocar a pele da tua mão. Agora, podia dizer uma palavra, podia dizer o teu nome como se caminhasse numa rua e perdesse uma flor. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Não sei se o rosto, o olhar, o brilho, que vi eras tu, se era a imagem de ti na minha memória. Na última luz, vi-te. Não sei se te vi. Imóvel. Em silêncio. Tenho medo de que não estejas aqui, neste banco negro, ao meu lado, dentro desta escuridão onde também estou. Mas eu sei que estás aqui. Se quisesse, podia dar-te a mão. Se quisesse, podia dizer o teu nome. Mas eu não sei se estás aqui. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Cheguei para sempre a este jardim e quero que esta noite negra continue para sempre e que nunca tenha de saber se este rosto, aqui, ao meu lado, dentro da escuridão, és tu ou a imagem de ti nesta memória que está aqui ou que sonha que está aqui.

José Luís Peixoto, in "Antídoto"

22.2.10

Loneliness

Fotografia: Joël Le Montagner

Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?

Haruki Murakami, in "Sputnik, Meu Amor"

19.2.10

Livros, mulheres e o medo que suscita(va)m


Há uns meses, na sala de espera de um consultório médico folheava uma daquelas revistas femininas que achamos que nada nos vai mostrar de novo, quando ainda por cima já era de há dois anos atrás. O título de um livro despertou-me a atenção e não descansei enquanto não o tive comigo. "Mulheres que lêem são perigosas" é um livro delicioso, com imagens belíssimas sobre a relação das mulheres com o mundo fascinante da leitura. Stefan Bollmann leva-nos numa viagem empolgante pela história da leitura desde o século XIII até ao século XXI. "O motivo da mulher que lê fascinou artistas ao longo de todas as épocas. No entanto, até ser permitido às mulheres ler aquilo que elas bem entendessem, passar-se-iam bastantes séculos. Primeiro que tudo, deveriam bordar, rezar, cuidar dos filhos e cozinhar. Contudo, no preciso momento em que se aperceberam da leitura como uma possibilidade de trocar o estreito mundo do lar pelo ilimitado universo das ideias, da fantasia, e também do conhecimento, passaram a constituir uma ameaça". Para quem, como eu, é mulher e tem uma relação tão forte com os livros, este livro é uma aprendizagem sobre esse privilégio e um deleite. É impossível escolher uma só imagem de tantas tão bonitas e tocantes, tal como é imperativo ler e reler com calma todas as linhas dos textos que as acompanham.
Deixo-vos dois bocadinhos do prefácio divertido e provocatório escrito por Elke Heidenreich:

"Nas fogueiras da Inquisição arderam sobretudo mulheres e livros. Proporcionalmente, a quantidade de homens que delas foram vítimas foi bastante reduzida. No entanto, as mulheres que sabiam ler e escrever, que soubessem fosse o que fosse, e os livros, onde estivesse contido algum conhecimento, eram ambos considerados perigosos."

"Da leitura resulta a autoconfiança, da autoconfiança resulta a coragem de ter ideias próprias. Os homens não gostam necessariamente de mulheres que lêem. «Não é ao nível do cérebro», escreve Gottfried Benn numa carta, «que os homens pretendem ser estimulados por uma mulher, mas noutro lugar bem diferente.» Ora aí está. Nós sabemo-lo e apesar disso continuamos a ler. Com o passar dos anos, os livros tornam-se por vezes até mais importantes que os homens. Queremos que o nosso coração seja estimulado. Os autores literários conseguem-no."

Imagem: Rapariga a Ler, de Franz Eybl

18.12.09

O meu dia...


...hoje, entre chuva e frio.

14.12.09

Ler (também) é recordar

Estou a adorar o livro que comecei ontem a ler! Cada página é uma descoberta cheia de emoção e ternura. Deixo um bocadinho, para aguçar a curiosidade...

"O toque da sua mão permaneceu sempre vivo na minha memória. Era uma sensação diferente de tudo o que eu até então experimentara, e mesmo depois disso. Tratava-se, pura e simplesmente, da mão pequena e quente de uma rapariguinha de doze anos. E, contudo, aqueles cinco dedos e a palma daquela mão continham, tal como uma caixinha de amostras, tudo o que eu queria saber acerca da vida - e tudo o que havia a saber. E ela, ao pegar na minha mão, teve o condão de me ensinar todos os segredos. Ajudou-me a compreender que no mundo real existia um lugar como aquele. Durante dez segundos, tive a sensação de me ter transformado num passarinho perfeito, capaz de voar no céu, ao sabor dos ventos. Lá do alto, alcançava as paisagens longínquas, tão distantes que não era capaz de distinguir com nitidez as coisas que havia para ver, apesar de saber que existiam. Ao mesmo tempo, sabia que um dia viajaria até essas paragens. Uma tal certeza deixou-me sem fôlego e provocou um tremor no meu peito."

Haruki Murakami, in "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol"

21.11.09

Segredo!...


"- Florinda - disse o Rapaz de Bronze -,
vou-te ensinar um grande segredo:
quando tu vires uma coisa acredita nela,
mesmo que todos digam que não é verdade."

Sophia de Mello Breyner, in "O Rapaz de Bronze"

19.11.09

Livros e liberdade

Hoje comprei um livro na Feira do Livro da Escola. Ao abri-lo, li e achei curioso, porque me fez pensar em todas as polémicas levantadas em torno da edição de alguns livros...

"Os livros são tão livres
como os mais livres de nós
e por isso há quem receie
que os livros ganhem voz
e venham para o meio da rua
com a verdade nua e crua
do que têm para dizer.
E o que têm para dizer
é, no fundo, a liberdade
que o escritor tem ao escrever."

José Jorge Letria, in "Ler Doce Ler"

21.10.09

A ler...

Quem acompanha este espaço já sabe que sou uma apaixonada pela escrita de José Luís Peixoto. Há algum tempo que tinha o "Cemitério de Pianos" na estante, à espera do momento certo para ser lido. Porque há momentos certos para ler alguns livros, sobretudo aqueles que pressentimos que são especiais e que mexem com aquilo que somos e sentimos. Ainda não li muitas páginas, mas, não fosse o cansaço, já o tinha devorado, ou melhor, saboreado. É sempre uma escrita mágica, intensa, que respira ternura e poesia através de cada uma das palavras. É a minha companhia nestas noites frias, em que a chuva bate nos vidros e nos faz ir ao baú fazer as pazes com o velho e aconchegante cobertor.

18.10.09

O coração pode sempre ter abrigo

Os livros infantis de José Jorge Letria chamam-me sempre a atenção, são absolutamente deliciosos e, quase sempre, se aplicam a qualquer idade. Por isso, quando há dias vi esta nova obra, não resisti a lê-la. Na voz de um sem-abrigo, este livro retrata os seus dias vividos na rua, depois de ter decidido "passar a ponte" para uma vida sem ligação ao mundo "normal". Nessa vida, há um ser que ocupa o lugar principal do seu coração: Lobito, o cão amigo que o acompanha sempre e o liga ao mundo dos afectos, afastando-o um pouco da total solidão. É uma história triste, mas bonita, que nos faz pensar nas relações humanas de uma forma mais relativa. Muitas vezes, um animal pode ser a única companhia que dá um sentido à vida.

"Não, não estou a chorar. Foi uma folha seca arrastada pelo vento que me bateu no olho e o deixou vermelho e a arder. Tu sabes que um sem-abrigo não chora. Porquê? Porque deixou o saco das lágrimas do outro lado da ponte, antes de fazer a grande e definitiva travessia. Há coisas que é tempo de aprenderes."

José Jorge Letria, in "Coração sem Abrigo"

12.10.09

Inseparável

Não tive tempo para comprar uma prenda, por isso resolvi oferecer um dos livros mais especiais para mim. Mas a saudade foi tão grande que, hoje, não consegui aguentar e fui a correr a uma livraria comprá-lo, para o poder ter novamente comigo. Não posso mesmo separar-me dos meus livros! O alívio e felicidade foram tão grandes que partilho aqui um dos poemas. Não posso dizer que é o mais bonito, porque acho-os todos, todos, lindíssimos! Vale a pena ler e voltar sempre, a qualquer hora do dia ou da noite, a estas páginas repletas de amor, vida e intensidade.


VERTIGEM

somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.



José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

5.10.09

A ler


"No cimo das escadas com os pés em suspensão, a minha cabeça aprendia a buscar luz nos livros.
Quando os terminei, queria mais."

Erri de Luca, in "O Dia Antes da Felicidade"

30.9.09

Depósito de palavras

"Acho que estas sociedades frias fazem com que cada um fique com um depósito de palavras que deviam ter sido ditas e que não dissemos porque não tivemos ninguém para as ouvir. As tais palavras da alma. As palavras que exprimem o que não faz falta às coisas do mundo, aquilo de emoções e sentimentos que trazemos dentro à procura de um ouvinte, de um irmão de seita que saiba que o amor se exprime por coisas simples e vividas de outra maneira."

António Alçada Baptista, in "O Tecido do Outono"

11.9.09

Água


"Encho o regador e espalho fios de água sobre as flores. Como desejava ser uma malva a ser assim regada. Como desejava ser uma malva a suportar a hora do calor com a certeza da água assim, tão fresca e tão verdadeira, a escorrer-me pelas folhas e pela garganta, a inundar-me as raízes e so cabelos."

José Luís Peixoto, in "Nenhum Olhar"

4.9.09

Assim...



3.9.09


"Os livros são espelhos: só se vê neles o que a pessoa tem dentro."

Carlos Ruiz Zafón, in "A Sombra do Vento"