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19.6.10

À sombra de um embondeiro...


"Na viagem para África, porém, esse sonho rodopiou. Talvez tivesse esperado demaisado tempo. Nessa espera, aprendi a gostar de ter saudade. Recordo os versos do poeta que diziam «eu vim ao mundo para ter saudade». Como se apenas pela ausência eu me povoasse interiormente. Seguindo o exemplo dessas casas que só se sentem quando estão vazias. Como esta casa que agora habito."

Mia Couto, in "Jesusalém"

28.5.10

Bagagem

Começo a sentir um friozinho na barriga. Faltam sete dias e há tanta coisa para preparar, tanta coisa para arrumar e não esquecer! É o repelente de mosquitos, o leque, o protector solar de protecção máxima, o chapéu, boletins de vacinas, cópias de documentos, fotografias tipo passe sobressalentes, toalhetes, fato de banho, chinelos, calças (e nunca calções!), mochila, máquina fotográfica, material de escrita (computador nem pensar, claro...), uma espécie de farmácia que me ocupa quase metade da mala... e quantas mudas de roupa levar? Terei calor? E se estiver frio e não levar nenhum agasalho? Levo saco-cama ou não vale a pena? O que me apetece fazer é deixar isto tudo de lado, pegar numa mochila, pô-la às costas e não levar nada!! Ir, só indo, levando-me apenas a mim mesma e aos meus sonhos... É incrível como estamos tão dependentes de tanta coisa inútil! Só a preparação de uma viagem como esta me está a fazer pensar nisso de uma forma como nunca pensei. O que preciso mesmo? O que é essencial? Será que se não levar algumas destas coisas não sobrevivo? Chego à conclusão que o que é essencial não se pode pôr numa mala porque simplesmente não cabe em lado nenhum. Esta bagagem ainda vai dar que falar!...

22.5.10

Nunca é tarde para realizar um sonho!


Não sei explicar porque motivo, mas África esteve sempre no meu pensamento. Desde muito pequena que me lembro de me imaginar a ir, a ficar, a fazer alguma coisa de útil para quem mais precisasse. Sempre me imaginei a ser feliz lá. Fui sempre adiando este sonho, em parte por medo. Medo de não conseguir, de não me adaptar, de deixar aqui os que mais amo e de acontecer alguma coisa e eu não poder estar, medo... Mas há momentos na nossa vida em que uma série de circunstâncias, nem sempre felizes, nos fazem ir remexer no baú e buscar aquilo que é a nossa essência e que sabemos que precisamos ser e fazer. E o momento é agora. África não podia esperar mais. Ou eu não podia esperar mais por África, talvez seja isso. Por isso vou. Parto para a semana, com todos os sonhos no coração e a vontade de fazer algo diferente, por mim e pelos outros.
Vou integrada na Missão Aventura Solidária, da AMI. Uma forma diferente de viajar e de conhecer por dentro as missões desta organização. Uma forma de ajudar a financiar um projecto numa comunidade local e de conhecer de perto a realidade, a cultura, as pessoas. São dez dias, neste caso no Senegal, na construção de um Centro de Costura, que vai contribuir para a formação profissional das mulheres da comunidade rural em que este se situa e que pode ajudar a criar alguns empregos, evitando assim a migração para os centros urbanos, onde cada vez há menos condições de vida e maior pobreza.
Vai ser mesmo uma aventura! Não conheço ninguém do grupo e ontem comecei a perceber um pouco a realidade que vou encontrar, mas que acho que só entenderei na totalidade quando lá aterrar. Falta de água (que pode chegar a dias), calor provavelmente insuportável, falhas de electricidade, inexistência de internet, dormir no chão, partilhar o dia-a-dia em acampamento com mais 16 pessoas, lidar com bichos a que não estou habituada... enfim, uma série de dificuldades a que vou ter que me adaptar e que, acredito, mudarão a minha forma de ver e de sentir este mundo em que vivemos.
Partilharei aqui algumas das emoções e dos momentos vividos neste projecto, que tenho a certeza serão muitos e imensamente especiais!


Um abraço especial ao Edgar Neves, que me despertou ainda mais o bichinho... e à L.E., que nos momentos mais difíceis trouxe tanta luz a este espaço! Obrigada!

15.5.10

A sonhar...

...e a imaginar como será "under african skies"...

Almost there!

8.2.10

Perdão

Hoje vi Invictus, o novo filme de Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela. À parte algumas críticas que até me tinham tirado a vontade de o ver, este filme tocou-me profundamente pelas várias mensagens que transmite. Uma delas é que "o perdão liberta a alma". Não é uma novidade, é certo, mas a forma como esta máxima é retratada fez-me pensar em muitas coisas e vê-las de outra perspectiva. Enquanto não formos capazes de perdoar, muitas vezes coisas tão pequeninas e insignificantes perante os grandes problemas que existem no mundo, a raiva e a dor habitarão o nosso coração e impedirão que sigamos a nossa vida e possamos ser felizes e livres.
O "bichinho" de África voltou ao ver algumas imagens, não sei porquê, mas a verdade é que a vontade e a necessidade de ir são cada vez maiores...
Também gostei muito do poema que "deu" o nome ao filme, uma lição de coragem e de superação dos momentos mais difíceis da nossa vida. "Sou o comandante da minha alma". Lindo!



Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


William Ernest Henley