Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens

27.12.09

Lugares e histórias de amor

Hoje passei o dia a passear em Viseu, com três amigas muito especiais, entre sorrisos, recordações e novidades. Viseu é uma cidade linda, sobretudo com o frio e com as iluminações de Natal. Acho que é mesmo uma cidade de Inverno! Já conhecia um pouco, mas hoje redescobri-a com outro olhar, mais atento e curioso. Caminhámos imenso, com tempo e calma, na zona histórica, perto do rio, visitámos o Museu Grão Vasco (recuperado há poucos anos com um projecto de Eduardo Souto de Moura e lindíssimo!). As pessoas são acolhedoras, sentia-se uma magia no ar, um sentimento de tranquilidade e alegria que nos contagiou. Por isso, hoje, posso dizer que me senti... feliz! Fiquei especialmente comovida por saber que a minha amiga M. está apaixonada e tão, tão feliz! Desejo o melhor para ela, pois merece e muito! É emocionante ouvir uma história de amor tão bonita, em que o destino ganha uma força tão grande, onde e quando menos se esperava. Parece que ganhamos uma nova esperança na... vida! Adorei!

12.12.09

Parar

Hoje abri um e-mail do Padre Pedro, Capelão do CHC, que já tinha recebido há dias, mas a que não tinha ligado. Num dos anexos, esta história, linda, que não conhecia e que me fez reflectir...

PORQUE GRITAMOS?

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: "Porque é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?" "Gritamos porque perdemos a calma", disse um deles. "Mas, para quê gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?" Questionou novamente o pensador. "Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça", retrucou outro discípulo. E o mestre volta a perguntar: "Então não é possível falar-lhe em voz baixa?" Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu: "Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido?" O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir esta distância precisam de gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente. E porquê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas." Por fim, o pensador conclui, dizendo: "Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".

Mahatma Gandhi

30.8.09

Acreditar

A adaptação ao cinema do conto infantil de José Saramago, A Maior Flor do Mundo, por Juan Pablo Etcheverry, é uma preciosidade, não só para crianças, mas sobretudo para lembrar os adultos que deixaram de acreditar que ainda é possível...

26.8.09

Voar




Uma história de amor e esperança para as "Estrelinhas" mais novas que todos os dias abrem este baú... Para que nunca, mas nunca deixem de sonhar!...


Era uma vez uma gaivota que se chamava Alice. Tinha umas asas enormes, cobertas de penas brancas e luzidias, que irradiavam um brilho intenso quando o sol as beijava, de mansinho, ao amanhecer. A gaivota Alice adorava voar. Ficava horas e horas a voar, a planar, a fazer voos rasantes que irritavam as pessoas que nadavam tranquilamente. Mas o que Alice mais gostava de fazer era voar mais alto que todas as outras gaivotas. Voar onde ninguém mais conseguia chegar. E ficar a ver o mundo lá de cima, onde tudo era tão pequenino que parecia da família das formigas. O que a gaivota Alice mais gostava nestes voos era estar sozinha, longe das outras gaivotas barulhentas, e poder ouvir o silêncio do céu, no meio das nuvens. Era um silêncio que não havia em mais parte nenhuma por onde voasse. Era profundo e ao mesmo tempo leve. Mas não pensem que era um silêncio, silêncio. Não, não! Era um silêncio com música. A música das nuvens a deslizar pelo céu, a música das gotinhas de chuva quando estava mau tempo, a música das suas asas a cortar o ar… Era um silêncio mágico, que só ela conhecia.
Um dia, a gaivota-macho Frederico observou com calma aquele voo arriscado, muito acima de todas as gaivotas do bando, que mantinham a altura ideal para poderem estar juntas e ir conversando sobre a sua vida, ao mesmo tempo que deitavam o olho aos cardumes de sardinha que iam passeando no mar. Nesse dia, Frederico sentia-se estranho, um pouco adoentado talvez, e deixou-se ficar na praia, sozinho. No mais alto dos céus, Alice voava, indiferente ao bando. De pálpebras cerradas, voava, voava, fazendo piruetas e sentindo o ar frio a abanar as suas belas penas. Frederico não compreendia como era possível uma gaivota aparentemente tão frágil voar tão alto e arriscar tanto, ficando sozinha no meio do céu e dos seus perigos. Assim que Alice terminou um dos voos rasantes e poisou as patas na areia, Frederico aproximou-se e perguntou, intrigado:
- Alice, porque voas tão alto, longe de todos nós?
Alice compôs as suas penas, sorriu e respondeu com tranquilidade:
- Porque lá em cima há coisas maravilhosas que não encontro cá em baixo. Se soubesses, Frederico, como é belo o mundo visto de tão alto! E o silêncio… Ah, o silêncio do alto dos céus é a coisa mais fantástica que existe!
Frederico continuava, curioso:
- Mas como és capaz de voar assim tão alto?
- É fácil. Basta querer, gostar, desejar. Depois fechas os olhos, concentras-te e passas a barreira que as gaivotas mais velhas dizem que é impossível passar. Depois disso, é só abrir as asas o mais possível e desfrutar!
- Levas-me lá? – perguntou Frederico.
- Claro que sim! – respondeu Alice, entusiasmada por poder partilhar o seu céu com o amigo.
E lá foram os dois, cúmplices da aventura. Ao chegarem perto da barreira, Alice deu a asa a Frederico e disse-lhe:
- Tu consegues! Fecha os olhos, respira fundo e…
Nesta altura os dois amigos passaram a barreira e Frederico sentiu-se como nunca havia sentido. Ao contrário do que diziam, o ar lá em cima era muito mais puro. E o corpo parecia mais leve, como se flutuasse. Frederico sentiu uma felicidade desconhecida invadir-lhe todas as penas, desde a ponta das asas até à cabeça. Quando olhou para o lado, Alice voava, serena e feliz, de olhos fechados. As suas penas tinham um brilho único, perfeito, como só ali podia haver. Frederico sentiu que o mundo lá em cima era tão bonito que não mais queria descer. Alice aproximou-se e disse a Frederico:
- Queres ouvir a música das nuvens a deslizarem no céu? É o silêncio mais bonito que existe! - e, dando a asa a Frederico, voou ainda mais alto para junto da estrada das nuvens. Aí, ficaram os dois a planar, em silêncio e de asas dadas, durante muito tempo.
Era quase noite quando regressaram à praia. Sentaram-se os dois na areia molhada, longe do bando, e ficaram a conversar até o sol começar a nascer no horizonte. Não tinham sono, nem fome, nem cansaço, porque aquele voo juntos, no alto do céu, deu-lhes uma força que não entenderam. Só sentiram que a vontade de voar começava novamente a nascer com o sol da manhã. E assim, aproveitando os primeiros raios da estrela maior, voltaram, asa com asa, a voar no mais alto dos céus, desafiando todas as regras de vida das gaivotas…

10.4.09

Sexta-Feira Santa

O dia costumava amanhecer cinzento, frio e triste. Aos poucos, no entanto, as nuvens iam-se dissipando e o sol ia espreitando, tal como hoje o vejo da minha janela. Podia chover até, mas àquela hora, quase por milagre, nunca chovia. E a Procissão do Enterro do Senhor sempre saiu à rua na minha terra, na Sexta-Feira Santa.
Todos os anos, os meus avós iam com antecedência alugar o fato. Era um vestidinho branco, não sei de que tecido, mas fino, suave, macio, esvoaçante. Os meus sapatinhos eram brancos, sempre a condizer. Nas costas umas asas fofinhas, repletas de penas, que me magoavam imenso, mas que no fim do dia não queria tirar. Na cabeça uma auréola, presa por um elástico que me feria as orelhas e que me dava vontade de arrancar. Afinal, a auréola dos anjos não precisa de estar presa por um elástico, flutua simplesmente! Nas mãos uma cruz, branca também. Anos e anos me vesti de anjinho. Tudo era um mistério para mim, mas que eu achava mágico. Era um dia especial, em que me sentia verdadeiramente um anjo, mais pertinho de Deus. Custou-me deixar de ser anjo, ainda hoje olho para os meninos, já sem asas ou com fatos de cores fluorescentes, e tenho saudades das asas que me magoavam as costas. Hoje, na Procissão, já não há anjos, apenas umas amostras de uns Santos que ninguém conhece muito bem. Continuo a achar os anjos tão simples e tão cúmplices de Deus que todos os anos, neste dia, vou buscar as fotografias desses dias ao baú. Nalgumas estão o meu bisavô (que saudades do queijo vermelho que comíamos juntos nos degraus da tua casa!), a minha avó (linda, linda e feliz!) e o meu avô (sorridente e orgulhoso...). Noutras a minha mãe (jovem, cheia de energia, que agora não lhe consigo encontrar), noutras apenas eu, concentrada no meu papel, que levava sempre muito a sério.
Cada vez mais gosto de anjos, gosto de os imaginar com asas cheias de penas, com auréolas que flutuam sobre os cabelos de seda, com vestidos esvoaçantes e com sapatinhos brancos. Anjos que nos protegem, que cuidam de nós enquanto dormimos ou estamos doentes, que riem e dão pulos de alegria quando estamos felizes, que nos põem a mão no ombro e choram connosco quando sofremos, que mesmo quando temos dúvidas ou nos esquecemos deles não nos abandonam. Anjos da Guarda.

9.2.09

Tempo


A mulher estava sentada à soleira da porta. A casa era velha, como ela. As paredes eram de pedra, gastas pelo tempo, as janelas tinham feridas, remendadas com papel, a porta estava aberta, não sei se conseguiria fechar-se. Houve algo naquela mulher que me atraiu... Seriam as rugas? O sorriso? A solidão?... Sentei-me a seu lado, na soleira da porta. Há muito que não fazia algo tão simples e, todavia, tão complexo. Estar com alguém só porque sim, ficar, conversar, esquecer o relógio que teimosamente batia no meu pulso e me chamava para casa. A mulher tinha todo o tempo do mundo, e eu toda a curiosidade...

24.1.09

Revolvi o meu baú e...


Hoje voltei a casa dos meus pais determinada a remexer o meu baú. Às vezes preciso de rever aquilo que fui guardando ao longo dos anos e que foi contribuindo para a construção da minha personalidade, é talvez uma forma de me reencontrar comigo mesma. E hoje, depois de abrir gavetas, escrivaninha, armários, caixas, malas, encontrei uma revista especial que não via há anos! A revista "Escola & Companhia" (da minha escola secundária), de cuja redacção fiz parte. E este número tinha várias coisas igualmente especiais: a capa, feita por mim, sobre racismo, o espaço "Bloco de Notas", que eu assinava e onde criticava o que estava mal na escola (já na altura ia sendo linchada! :)), e um conto de Natal... Sentei-me no chão do meu quarto e voltei a ler... já não me lembrava sequer que o tinha escrito, mas como acho que nada acontece por acaso, talvez este "encontro" me queira dizer alguma coisa. Fala de um sonho e da sua concretização. Eu e os sonhos, os sonhos e eu... foi bom perceber que 10 anos depois continuo a mesma sonhadora. Daqui a 10 anos desejo continuar assim...
Já não estamos na época do Natal, mas o espírito natalício pode envolver-nos a qualquer momento, por isso resolvo partilhar este conto, porque também ele faz parte do meu baú de recordações...

"Neve milagrosa?"

Esta história poderia começar por "Era uma vez há muitos anos atrás...", mas não é assim que quero que ela comece. Esta história não faz parte do passado, repete-se no dia-a-dia e na vida de muitos jovens e é por isso que a conto. Ao escrever este conto, não pretendia apenas escrever mais um banal conto de Natal, sobre uma criança sem casa ou acerca de um velhinho sem família (não que estes não sejam problemas importantes!); pretendia que fosse um alerta para um dos problemas que cada vez mais afecta negativamente a vida de muitos jovem: a autodestruição dos seus pais. Não vale a pena dizer o ano nem o local onde tudo se passa, porque afinal, esta história é uma manta de retalhos de testemunhos, nela certamente se reflectem muitos dos leitores desta revista. Mas será que o Natal é só uma desilusão ou haverá algo que o possa tornar num sonho?...

Neva. As horas passam, mas ninguém repara. É a primeira vez que aqui neva... As crianças divertem-se atirando bolas de neve umas às outras, os adultos deliciam-se a ver os seus rebentos tão felizes e, contagiados pelo ambiente de euforia, misturam-se nas brincadeiras com os mais pequenos. Quando saem da escola, todos os jovens se juntam àquele espírito de união, de cumplicidade. Nunca tinha nevado aqui...
Alheia a toda aquela algazarra, uma rapariga caminha no passeio. Não se interessa com a neve, apesar de também nunca a ter visto. De repente, pára. Baixa-se e agarra um pouco de neve para a sentir, na esperança de que essa sensação lhe traga alguma surpresa ou admiração. Recorda os livros da escola primária, com aquelas imagens de montanhas cobertas de bolinhas de algodão chamadas neve. Agora sente-a, mexe e remexe sem encontrar nada de atraente. Não, atira-a para o chão, enfia as mãos nos bolsos e continua o seu caminho. A única coisa que sente diferente é a sua mão, agora enregelada. Afinal, a neve não é nada de especial, foi só mais uma desilusão. O seu nome é Rita... a sua vida é como as folhas no Outono: vai para onde o vento a quiser levar.
Quando Rita chega a casa não encontra ninguém. Chama, mas ninguém responde. Respira de alívio, adora estar sozinha e prefere enfrentar o medo da solidão do que o medo do cinto do pai. A noite passa calmamente, a neve cai lá fora e Rita, embalada pelo suave assobio do vento, adormece lentamente. De repente, sente fome, levanta-se e dirige-se à cozinha. Procura em todo o lado, mas nada há para comer. A mãe não deixou sequer um pão para a sua última refeição. Mas ela já está habituada e volta a deitar-se no seu leito. Tenta dormir, mas desta vez é-lhe difícil. Sente-se atormentada pela fome, pelo medo e pela solidão. Não quer sonhar, mas é inevitável. Começa a imaginar-se numa bonita e simples casa, os pais chamam-na para o jantar e or irmãos correm à volta da mesa. O jantar é frango assado no forno... O doce perfume entra-lhe pelas narinas e deixa-lhe água na boca. Continua a sonhar. Mas, num ápice, acorda. Agora a fome aperta mais e a tristeza também, não quer chorar porque é corajosa, mas sem queres, as lágrimas começam a escorrer-lhe pela face e os gritos de desespero saem-lhe da boca como a neve cai do céu. Rita é assim: uma face de esperança, outra de desespero.
O sol brilha no seu mais alto esplendor, está muito frio, mas isso que importa? Quando Rita entra atrasada na aula faz-se silêncio. Alguns colegas murmuram: "Mais uma surra e menos uma pipa de vinho na tasca do ti Inácio! Ah! Ah! Ah!". A professora aproxima-se preocupada, mas logo se afasta quando recorda as palavras da aluna: "Não preciso de ajuda, o problema é entre mim e os meus pais, deixe-me em paz!". Rita porta-se normalmente, como se nada tivesse acontecido. Por vezes torna-se irritante o seu comportamento de apatia perante os abusos do pai e a indiferença da mãe, mas ninguém tem coragem para interferir, ela própria nunca deixaria!
As férias começaram. Todos estão felizes, correm para casa e depois para o habitual encontro no café, onde combinam o destino das férias de Natal, ou simplesmente disputam os pedidos das melhoras prendas. Rita corre para casa porque sabe que hoje o pai chega mais cedo. Quer chegar primeiro que ele, mas não consegue. Quando entra em casa, já o pai a espera de cinto na mão. Grita-lhe, exige saber a razão da sua demora. insulta-a e bate-lhe. O silêncio do pequeno casebre é cortado pelo ruído das chicotadas. Rita não se atreve a gemer ou a gritar, sabe que isso vai agravar o seu castigo, já está habituada. À noite o cenário repete-se, desta vez com a mãe. Rita encolhe-se debaixo do lençol, tapa os ouvidos com as duas mãos e chora baixinho. Quer ajudar a mãe, bater no pai, mas não tem coragem, isso agravar-lhe-ia o castigo, já está habituada.
O dia eleva-se devagarinho, a chuva cai e a neve derrete, transformando-se em lama. As montras das lojas da cidade contrastem com este cenário: estão repletas de anjinhos, pais natais e pinheirinhos enfeitados com mil cores, com mil luzinhas de ouro que cintilam por entre embrulhos e docinhos, roupas e brinquedos, computadores e bicicletas. Rita olha maravilhada para uma montra, parece que nada mais no mundo lhe interessa. Uma velhinha que vai a passar, pára e pergunta-lhe curiosa: "Porque olhas tão fixamente para essa montra, minha menina? Só há aí brinquedos para crianças e tu já és quase uma senhorinha!". Mas Rita não olha para a montra, nem para os brinquedos, olha para o seu sonho, para a sua infância e inocência perdidas e chora, chora, chora... Corre para casa impelida por um instinto, não sabe nem sonha o que a espera...
No pequeno casebre, o silêncio impera. Rita abre a porta e dá um grito. A sua mãe jaz no chão da cozinha, um fio de sangue escorre-lhe da boca, tem a roupa rasgada e o corpo cheio de nódoas negras. Tão assustada está que não sabe o que há-de fazer. Corre para o café perto da rua onde mora e pede para chamarem uma ambulância. De nada lhe vale este pedido tão angustiado, a sua mãe já não tem pulso e os médicos nada podem fazer. Preocupados com a adolescente, tentam saber o que tem acontecido naquele pobre casebre. Rita não mexe, não fala, não chora... ouve com raiva os ruídos do cinto do pai atormentarem as costas da mãe... Essa lembrança não lhe sai da cabeça e, revoltada com o mundo tão cruel que a tem criado, grita de desespero, agarra-se aos médicos e implora-lhes que tragam de volta a sua mãe, ordena-lhes que o façam e diz-lhes entre soluços que tudo será diferente se a mãe voltar. Quando a polícia chega ao local, Rita denuncia o pai e todas as suas crueldades. Pede-lhes que o prendam porque, se tal não acontecer, ela será massacrada por ter confessado o que se passou durante dezasseis anos entre aquelas frágeis paredes. Agora já nada lhe resta, nem as recordações... Recordações?! De quê? De quem?...
É meia-noite da véspera de Natal. Batem à porta da casa onde Rita agora mora, longe de todo o pesadelo que viveu. Passados cinco anos depois de tudo, a sua vida mudou. Não se lembra da sua mãe, não quer saber do seu pai. Mora com os seus verdadeiros pais, aqueles que a curaram das suas feridas, aqueles que a abraçam quando ainda parece ouvir o cinto do pai e os gritos da mãe, aqueles que todos os dias lhe dão pão quentinho pela manhã, aqueles que a amam, que a ajudam e protegem. Alguém mandou entregar um embrulho para a menina Rita. É uma caixa linda, dourada pela luz da fita que a envolve. Rita corre para o pé dos pais, junto da árvore de Natal. Senta-se no chão e, antes de abrir o embrulho, olha à sua volta. Tudo de bom a rodeia: comida na mesa, presentes debaixo da árvore de natal, uma lareira enorme que aquece e dá vida à casa, a roupa que a reveste é de uma lã tão quentinha que quase a deixa asfixiada e, o mais importante, duas pessoas curiosas que lhe gritam aos ouvidos: "Abre, não estás curiosa?!". Todo este ambiente contrasta com o ambiente que a rodeava há cinco anos atrás... Tão pouco tempo passou e tanta coisa mudou... No entanto, atraída pelo apelo curioso dos pais, abre a caixa-mistério: "Oh!!...". Todos ficam maravilhados. Apesar do sorriso de felicidade, as lágrimas brotam dos seus olhos, correndo em cascata pelo seu doce rosto. Rita enfia as mãos na caixa e ergue triunfante o seu sonho, a sua infância perdida, mas agora recuperada: a mais bonita boneca de porcelana que já tinho visto na sua vida. De repente, recorda-se daquela montra impressionante de há cinco anos atrás, recorda-se do rosto daquela velhinha e relembra o seu sorriso tão misterioso... terá sido ela a remetente deste maravilhoso presente? Seria ela a detentora do destino de Rita? Não se sabe, ninguém nunca o saberá... Mas havia qualquer coisa naquela misteriosa figura que faz Rita pensar. Algo interrompe os seus pensamentos. Batem à porta com força e, juntamente com os seus pais, corre para a rua. Neva... É a coisa mais maravilhosa que alguma vez aqui tinha sido vista. Rita ajoelha-se e apanha um pouco de neve. Olha para o céu e sorri: uma estrela cintilando cai devagarinho, como que desenhando também uma resposta àquele sorriso... Continua a nevar milagrosamente. Nunca tinha nevado aqui...

Anya Silke (o meu pseudónimo da altura! :)))