Vi há pouco mais uma excelente reportagem da SIC, "Este país não é para velhos", e, apesar de todas as histórias que já ouvi dos idosos com que trabalhei e das ajudantes de lar a quem dei formação, é impossível não ficar chocada, revoltada, enojada com as (tristes) histórias ali contadas. Histórias de maus-tratos, de abandono, de desprezo, de maldade, de desumanidade. É impressionante como há pessoas que são capazes de tratar assim os próprios pais, batendo-lhes, negligenciando-os, roubando-os! Há dias alguém me dizia com um ar fatalista que sentia que o mundo caminhava para um beco sem saída, que algo de muito mal estava para acontecer. Talvez seja verdade, para onde caminha a humanidade, afinal? Cada vez há menos lares, na verdadeira acepção da palavra. Cada vez menos as famílias querem cuidar dos seus idosos em casa, no conforto do seu verdadeiro lar. Por isso, num momento em que o meu avô já não me reconhece, embora me sorria e me beije sempre, tenho orgulho na minha família, sobretudo no meu pai e no meu tio, que fazem tudo para o manter em casa e cuidar dele com todo o amor do mundo, mesmo que seja preciso repetir-lhe 20 vezes a mesma coisa. Tenho noção de que é raro e, por isso mesmo, os admiro e amo ainda mais por isso. Sei que ele não está connosco como estava, está agora num mundo que nós não conhecemos, mas sinto-o feliz, o que me reconforta, sobretudo quando penso que mundo é este em que vivo e onde acho que cada vez menos há espírito de família e de respeito pelo ser humano.
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1.2.10
Que mundo é este?
Vi há pouco mais uma excelente reportagem da SIC, "Este país não é para velhos", e, apesar de todas as histórias que já ouvi dos idosos com que trabalhei e das ajudantes de lar a quem dei formação, é impossível não ficar chocada, revoltada, enojada com as (tristes) histórias ali contadas. Histórias de maus-tratos, de abandono, de desprezo, de maldade, de desumanidade. É impressionante como há pessoas que são capazes de tratar assim os próprios pais, batendo-lhes, negligenciando-os, roubando-os! Há dias alguém me dizia com um ar fatalista que sentia que o mundo caminhava para um beco sem saída, que algo de muito mal estava para acontecer. Talvez seja verdade, para onde caminha a humanidade, afinal? Cada vez há menos lares, na verdadeira acepção da palavra. Cada vez menos as famílias querem cuidar dos seus idosos em casa, no conforto do seu verdadeiro lar. Por isso, num momento em que o meu avô já não me reconhece, embora me sorria e me beije sempre, tenho orgulho na minha família, sobretudo no meu pai e no meu tio, que fazem tudo para o manter em casa e cuidar dele com todo o amor do mundo, mesmo que seja preciso repetir-lhe 20 vezes a mesma coisa. Tenho noção de que é raro e, por isso mesmo, os admiro e amo ainda mais por isso. Sei que ele não está connosco como estava, está agora num mundo que nós não conhecemos, mas sinto-o feliz, o que me reconforta, sobretudo quando penso que mundo é este em que vivo e onde acho que cada vez menos há espírito de família e de respeito pelo ser humano.31.8.09
Lar
Há livros que me chegam às mãos por acaso. Ou secalhar não. Talvez as minhas mãos tenham um íman que atraia precisamente o que procuram quando percorrem as estantes das livrarias. Assim foi com este livro, um dos mais profundos e emotivos que li recentemente.

E assim que me sentei, começou-me a despir.
- Eu dispo-me.
- Doutorzinho rabugento.
E sem me dar atenção, continuou a despir-me. Querida. Era uma moça ainda nova e ela retirava-me peça a peça a minha idade adulta até ficar a criança que ela queria. Eu tomo o banho! berrei-lhe para ela acreditar na minha força de homem. E ela disse ora não querem lá ver este menino birrento. Estou nu e sem razão para ter vergonha de estar nu, que era o que apenas me podia agora vestir. E tinha o coto da perna a atestar isso, porque o meu corpo não estava inteiro para atestar a importância de si. Então a Antónia manobrou uma manivela e a cadeira subiu mais alto que a banheira e depois manobrou ao contrário para a cadeira mergulhar comigo na água. E imediatamente começou a lavar-me. Tão desprotegido, Mónica. Tão desapossado do meu ser. Lavava-me a cabeça, o tronco, lavava-me as partes amorosamente. E eu pensei - depois vai pôr-me cueiros lavados. Então a minha mãe entrou devagar porta adentro e começou a lavar-me com carinho e eu estava sentado na velha selha de zinco, o pescoço, as orelhas, o sexo ainda por existir e eu tinha os olhos fechados e a António voltou a lavar-me ela e eu tinha uma vontade lenta de chorar. Antónia manipulava-me todo e havia ainda uma presença de mim para mim próprio e sentia que ela me tinha desapropriado do meu corpo.
Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"
- Eu dispo-me.
- Doutorzinho rabugento.
E sem me dar atenção, continuou a despir-me. Querida. Era uma moça ainda nova e ela retirava-me peça a peça a minha idade adulta até ficar a criança que ela queria. Eu tomo o banho! berrei-lhe para ela acreditar na minha força de homem. E ela disse ora não querem lá ver este menino birrento. Estou nu e sem razão para ter vergonha de estar nu, que era o que apenas me podia agora vestir. E tinha o coto da perna a atestar isso, porque o meu corpo não estava inteiro para atestar a importância de si. Então a Antónia manobrou uma manivela e a cadeira subiu mais alto que a banheira e depois manobrou ao contrário para a cadeira mergulhar comigo na água. E imediatamente começou a lavar-me. Tão desprotegido, Mónica. Tão desapossado do meu ser. Lavava-me a cabeça, o tronco, lavava-me as partes amorosamente. E eu pensei - depois vai pôr-me cueiros lavados. Então a minha mãe entrou devagar porta adentro e começou a lavar-me com carinho e eu estava sentado na velha selha de zinco, o pescoço, as orelhas, o sexo ainda por existir e eu tinha os olhos fechados e a António voltou a lavar-me ela e eu tinha uma vontade lenta de chorar. Antónia manipulava-me todo e havia ainda uma presença de mim para mim próprio e sentia que ela me tinha desapropriado do meu corpo.
Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"
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