...hoje era o teu dia. Dia de alegria. De ti guardo a felicidade de fazer anos, de comemorar a vida, de não querer nunca morrer. Mas morreste, avô. E por muito que eu saiba que estás comigo, de outra forma, não estás aqui, não te posso abraçar e encher de beijos, não te posso ouvir nem dizer que és o melhor avô que eu poderia ter. E isso dói, dói tanto, tanto, avô. Dói agora mais do que nunca. Às vezes, quanto mais tempo passa, mais parece que te sinto a falta. Às vezes ainda sinto o teu cheiro, o teu cabelo fino e suave, as tuas mãos fortes, apesar das rugas. Ainda tenho vontade de entrar a correr em tua casa, a chamar o teu nome e a ouvir-te responder-me. Ainda vejo o teu profundo olhar azul no meu, ainda ouço a tua voz a dizer-me o que nunca mais ninguém me dirá e que eu precisava tanto de ouvir. E hoje, mais do que nunca, sinto a tua falta, avô. Sinto demais a tua falta.
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24.4.10
17.4.10
14.4.10
Pedaços...
...de momentos de descanso, longe do mundo, em comunhão com a natureza e comigo própria.
Sabor a mar, a peixe, a pão fresco pendurado na porta, a madeira, a rosmaninho e alecrim, a passarinhos a cantar só para mim, a leituras, a pensamentos, a descobertas, a sonhos, a saudades, a música, a flores, a sol, a conchas, a luz da manhã a beijar-me o rosto... sabor a tudo e a nada... a amargo e a doce... sabor a vida!...
5.4.10
Aleluia!
As campainhas anunciam a chegada. Estão cada vez mais próximo. José dirige-se, com o apoio da bengala, para a porta, aberta de par em par desde a hora de almoço, à espera da visita, a única que tem durante todo o ano, desde a morte da mulher, há dois anos. Sabia que só viriam por volta das três horas, mas pouco depois do meio-dia já tinha a porta aberta. Pôs a toalha branca de linho na mesa, a mesma que usaram durante 60 anos para as visitas importantes, como a daquele dia, abriu o pacote de amêndoas que o padeiro lhe tinha oferecido e colocou-o no prato cavalinho, tão antigo como o chão da casa que o abrigava. No pratinho mais pequeno de vidro pôs o folar, uma nota de dez euros, pouco, mas o que podia dar. Estava tudo pronto. Não, faltava uma coisa muito importante! A mulher nunca lhe perdoaria aquele esquecimento. Foi ao pequeno quintal e apanhou um molho de flores brancas, daquelas a que chamavam flores da Páscoa, porque floresciam sempre nesta data. Partiu os ramos aos bocadinhos e espalhou-os em frente à entrada da casa. Agora sim, estava tudo pronto para a visita.
Foi-se sentar à entrada da casa no banco de madeira. Apoiado na bengala, deixou-se ficar a ver passar o tempo. O velho relógio de parede ia marcando o compasso de espera, tão cansado quanto ele. Àquela hora o silêncio era geral, estariam todos, certamente, a almoçar com a família, um bom cabrito, como era tradição, e como ele tantas vezes também fizera. Teve saudades desse tempo, desse sabor, do cheiro que fugia do forno a lenha e invadia a cozinha. Engoliu em seco. Para quê recordar? Coisas tristes, não voltam mais esses tempos, vamos lá ver se a fogueira ainda está acesa. Passou para o borralho, sempre se entretinha com a tenaz a mexer as brasas e ia ouvindo a televisão, mesmo sem ouvir. Era um barulho qualquer que estava ali, só isso, para atenuar o silêncio que escorria das paredes húmidas e frias.
Mas agora estavam perto, já se ouviam as campainhas ali mesmo ao lado. José dirigiu-se à porta, ajeitando o casaco cinzento que só vestia neste dia, para receber Nosso Senhor. Já aí vêm. Compôs novamente o casaco, endireitou-se, tirou a boina. As campainhas agora estão dentro da sua casa, dentro do seu silêncio, dentro do seu coração. Secou uma lágrima. Teimosas. Com a idade deixou de as conseguir controlar, tornaram-se tão fortes como um rio que por mais diques que construam corre sempre em direcção ao mar, poderoso, resoluto, levando tudo à sua frente. Paz a esta casa, aleluia, aleluia! E a todos os que nela habitam, aleluia, aleluia! Mais uma, teimosas, a mão disfarçadamente no rosto, a fazer de conta que se coçava, talvez ninguém tenha visto. Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia! Alegremo-nos todos no Senhor, aleluia, aleluia! Um beijo em Nosso Senhor, um aperto de mão aos rapazes e beijos às raparigas. O olhar curioso a percorrer os rostos desconhecidos. Mas que lindos meninos! Quem é esta? Filha de quem? Já não conheço ninguém, vocês agora crescem tanto e eu nunca saio de casa, já não conheço ninguém. Tirem uma amêndoa. Não, obrigada, senhor José, não temos fome. Olhem que isso é folar, que todos os anos gosto de dar, enquanto eu for vivo, nem que seja na cama, hei-de dar o folar. Obrigada, senhor José. Não querem sentar-se um bocadinho, descansem ao menos que a volta ainda é longa. Não, obrigada, temos que ir que isto é sempre a correr, já sabe, daqui a pouco é noite. E as campainhas saem a correr pela porta, aberta de par em par, para receber Nosso Senhor. Tirem ao menos uma amêndoa! Mas elas já lá vão, a tilintar pela rua, em direcção a outras portas. O sol penetra-lhe nos olhos, quase o cega. As flores pisadas, a porta aberta, as amêndoas no prato, a casa vazia, como nunca deixou de estar. Não ficou ninguém. José baixou os braços, deixou cair a cabeça, vencido. Um homem não chora. Um homem não foi feito para estar sozinho. E as lágrimas rasgaram-lhe as rugas e caíram pesadamente no chão.
10.3.10
Hoje...
...regresso a Florbela e às minhas violetas.
Doces, românticas, inspiradoras.
Adoro passar as pontas dos dedos no veludo das folhas
e na seda das pétalas.
São um autêntico poema.
Gosto imenso dumas floresMuito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas
Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.
Florbela Espanca, in Poesia Completa
22.2.10
25.12.09
Querido avô...
...faz esta noite um ano que nos deixaste. Sinto a tua falta mais do que nunca, sinto falta sobretudo da tua ternura, dos teus mimos, das palavras bonitas, das histórias... Tantas, tantas saudades, que a emoção não deixa dizer mais nada...
Estás sempre no meu coração!
24.12.09
15.12.09
Saúde e amor!
Natal sempre foi sinónimo de alegria e felicidade para mim. Tenho boas recordações desta época, da noite de consoada e do Dia de Natal. Recordações de ir apanhar musgo ao pinhal para fazer o presépio, em casa e na Igreja, de andar a comprar presentes para toda a gente de quem gostava, de comer os filhóses quentinhos feitos pela minha avó, de ficar até às tantas da madrugada a ver todos os filmes e o Circo, de estar à lareira a queimar os papéis dos presentes... enfim, recordações de família, de amor, de harmonia.
Este ano, pela primeira vez, não comemorarei o Natal, aliás, desejo que passe o mais depressa possível e, por isso, este é o único post que aqui colocarei sobre esta data, apenas para desejar a todos o melhor Natal do mundo! Acima de tudo, desejo duas coisas: saúde, porque podemos ter problemas e dificuldades, mas enquanto tivermos saúde podemos fazer tudo, tudo! E amor, porque não há nada mais bonito que uma família unida, em harmonia. E no Natal, como em qualquer altura do ano, aquilo que todos nós mais queremos é sermos e sentirmo-nos amados. Desejo-vos, a todos, um Natal muito feliz, do fundo do coração!
Esta é, talvez, das músicas mais parvas de Natal, mas a que mais gosto e me apetece cantar, desde que me lembro...
Este ano, pela primeira vez, não comemorarei o Natal, aliás, desejo que passe o mais depressa possível e, por isso, este é o único post que aqui colocarei sobre esta data, apenas para desejar a todos o melhor Natal do mundo! Acima de tudo, desejo duas coisas: saúde, porque podemos ter problemas e dificuldades, mas enquanto tivermos saúde podemos fazer tudo, tudo! E amor, porque não há nada mais bonito que uma família unida, em harmonia. E no Natal, como em qualquer altura do ano, aquilo que todos nós mais queremos é sermos e sentirmo-nos amados. Desejo-vos, a todos, um Natal muito feliz, do fundo do coração!
Esta é, talvez, das músicas mais parvas de Natal, mas a que mais gosto e me apetece cantar, desde que me lembro...
4.12.09
5.9.09
Falta
Hoje abri o meu Baú, este mesmo, e a música começou a tocar.
You raise me up, so I can stand on mountains;
You raise me up, to walk on stormy seas;
I am strong, when I am on your shoulders;
You raise me up….To more than I can be.
Há muito tempo que aguentava as lágrimas que tinham que acaba
r por sair... Hoje, especialmente. Hoje que te perdemos há nove anos, prima. Hoje, que estou na casa onde nasceste, cresceste e viveste tantos anos, e pergunto o que o futuro me reserva. Eras tão cheia de vida, infeliz, talvez, sozinha, mas cheia de vida. Hoje, a porta do teu quarto esteve aberta. Permanece como sempre o conheci desde pequena, com as bonecas que animaram a tua infância e que achava lindas. Agora olho para elas e vejo apenas destroços de um passado feliz que não volta mais. Fazes falta. Muita, a muita gente que ainda chora por ti e nunca se esquece de como a doença pode ser tão cruel e destruir-nos os sonhos.
Hoje vi-te. Há muitas semanas que não ia a tua casa, não me perguntes porquê, avó Maria. Há respostas que temos, mas que são para ficar connosco enquanto puderem ser nossas. Quando ouvi a tua voz e te vi aparecer apeteceu-me fugir. Sim, eu sei que parece cruel, mas pela primeira vez apeteceu-me fugir. Não te olhar nos olhos quando me perguntas pela vida, não ver como estás tão velha, avó!... A pele dos braços e das mãos tão velha... A voz a tremer. A cara abatida. A bengala onde te apoias para fazer o que ainda te vai dando ânimo e... esperança? Talvez. Nisso és como o meu avô Grilo, não queres morrer, eu sei. Ouvi-te muitas vezes dizer, tal como ele "eu sei que temos que morrer, mas eu cá não queria, se pudesse vivia sempre!". E rias-te muito, como sempre fazes quando achas que dizes uma coisa disparatada. Não é, avó. Eu penso o mesmo, sabes? Não queria morrer nunca, mas mais do que isso, não queria que vocês morressem nunca. Olho para ti, hoje, e percebo que a vida passa depressa demais, que perdemos depressa demais os que mais amamos e os que nos "levantam". A música do meu Baú continua a tocar e lembro-me daquele que mais me animava e fazia feliz. O meu avô. Tristeza? Melancolia? Não, apenas saudade, muita saudade, daquela que aperta o peito e faz as lágrimas caírem assim...
You raise me up, so I can stand on mountains;
You raise me up, to walk on stormy seas;
I am strong, when I am on your shoulders;
You raise me up….To more than I can be.
Há muito tempo que aguentava as lágrimas que tinham que acaba
r por sair... Hoje, especialmente. Hoje que te perdemos há nove anos, prima. Hoje, que estou na casa onde nasceste, cresceste e viveste tantos anos, e pergunto o que o futuro me reserva. Eras tão cheia de vida, infeliz, talvez, sozinha, mas cheia de vida. Hoje, a porta do teu quarto esteve aberta. Permanece como sempre o conheci desde pequena, com as bonecas que animaram a tua infância e que achava lindas. Agora olho para elas e vejo apenas destroços de um passado feliz que não volta mais. Fazes falta. Muita, a muita gente que ainda chora por ti e nunca se esquece de como a doença pode ser tão cruel e destruir-nos os sonhos.Hoje vi-te. Há muitas semanas que não ia a tua casa, não me perguntes porquê, avó Maria. Há respostas que temos, mas que são para ficar connosco enquanto puderem ser nossas. Quando ouvi a tua voz e te vi aparecer apeteceu-me fugir. Sim, eu sei que parece cruel, mas pela primeira vez apeteceu-me fugir. Não te olhar nos olhos quando me perguntas pela vida, não ver como estás tão velha, avó!... A pele dos braços e das mãos tão velha... A voz a tremer. A cara abatida. A bengala onde te apoias para fazer o que ainda te vai dando ânimo e... esperança? Talvez. Nisso és como o meu avô Grilo, não queres morrer, eu sei. Ouvi-te muitas vezes dizer, tal como ele "eu sei que temos que morrer, mas eu cá não queria, se pudesse vivia sempre!". E rias-te muito, como sempre fazes quando achas que dizes uma coisa disparatada. Não é, avó. Eu penso o mesmo, sabes? Não queria morrer nunca, mas mais do que isso, não queria que vocês morressem nunca. Olho para ti, hoje, e percebo que a vida passa depressa demais, que perdemos depressa demais os que mais amamos e os que nos "levantam". A música do meu Baú continua a tocar e lembro-me daquele que mais me animava e fazia feliz. O meu avô. Tristeza? Melancolia? Não, apenas saudade, muita saudade, daquela que aperta o peito e faz as lágrimas caírem assim...
27.2.09
2.11.08
Saudades...
Das minhas memórias faz parte também o "Dia de Todos os Santos". Recordo-me de quando era pequenina adorar este dia: passava a tarde no cemitério a acender velinhas e luzinhas nas campas dos meus familiares e, como se não fosse suficiente, percorria todas as outras a acender as que se iam apagando com o vento. Ficava no cemitério até à noite e aí era a magia: luzinhas e mais luzinhas que brilhavam e iluminavam a noite, um cheirinho a velas e flores que ainda hoje consigo sentir, uma mística no ar, as conversas que baixavam de tom à medida que escurecia, o silêncio que parecia falar...Hoje sei que é dia de recordar e homenagear os que nos deixaram e compreendo muitas das imagens que me ficaram na memória como uma incógnita. Hoje sei que todos os dias, sem excepção, se recordam os que já partiram, hoje sei também que a saudade é incomensurável e que, por muitos dias e anos que passem, nada apaga o amor que sentimos por quem nos deixou. Hoje sei que teria aberto o coração ao João se soubesse o vazio que sentia e que o fez desistir de tudo, hoje sei que obrigaria o Paulo a contar-me o que lhe ia no pensamento e o agarraria e nunca o largaria enquanto o sofrimento não o abandonasse, hoje sei que beijaria a minha prima Cristina e lhe diria que a amava e que não nos poderia abandonar porque a nossa família jamais seria a mesma sem ela, hoje sei que o meu tio António deixa um vazio impossível de substituir, hoje sei que tenho cada vez mais saudades da minha "avó velha", que me criou e mimou e me deixou tantas lembranças boas que nunca queria esquecer... Hoje sei, simplesmente, que tenho muitas saudades e que sinto a vossa falta na minha vida...
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