No meu "baú" estão muitos tesouros, todos aqueles que fazem parte da minha memória, onde ficarão para sempre guardados os sentimentos, os saberes e os afectos que vou vivendo ao longo dos dias...
Numa das noites de partilha à volta da mesa, dediquei este poema aos meus companheiros de missão. Para que se lembrem sempre que, por muito que seja preciso esperar, todas as sementes lançadas à terra com amor dão fruto.
É preciso nunca deixar de sonhar e de acreditar!
Guarda a tua seiva para as raízes e os dedos para a colheita. E depois detém-te a olhar o fruto, crescendo devagar, nas tardes que demoram até ao verão. Que te seja redondo, ao côncavo da mão, e nele reconheças o gosto e o perfume
mesmo antes de tocar-lhe; morde-o longamente com os olhos – é neles que a polpa faz mais sede e a pele transpira com o fulgor da cera. E não consintas vento, nem abelhas, nem que nele repousem outros olhos, muito mais pequenos, como os que trazem as aves voltando do Inverno. Deixa
o teu nome no pomar durante a noite – há mãos que nunca dormem e a espera pode tornar os frutos ociosos. Mas para mais ninguém este se avoluma, à tua boca prometido. Embala-o então com a verdade antes de partires. Cerca-o com os teus olhos. Mostra-lhe os dedos que irás um dia confiar-lhe.
E assim o tempo devolvê-lo-á inteiro a seu tempo, vermelho e tenro, doce, à espessura dos lábios.
Maria do Rosário Pedreira, in "A Casa e o Cheiro dos Livros"
"Cada um de nós nasce com um artista lá dentro. Um poeta, um escultor, um aventureiro... um cientista, um pintor, um arqueólogo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro. E o sonho e a distância, e o tempo e a saudade deram-nos vida, amor, problemas, mentiras e verdade; e damos por nós mesmos descobrindo que agora, se calhar, já é um pouco tarde. E nas memórias velhas e secretas da menina morou sempre aquele sonho de um dia ser... bailarina, actriz, modelo, princesa, muito rica; eu sei lá! Mas os anos correram num assombro, e a vida foi injusta em qualquer jeito para a chama indelével que ainda arde. E os filhos são bonitos no seu peito. Pois é... mas agora... agora já é tarde. E nos papéis antigos que rasgamos há sempre meia dúzia que guardamos. São os planos da conquista do Pólo Norte que fizemos aos sete anos, escondidos no sótão uma tarde, e estiveram perdidos trinta anos. E agora, se calhar, maldita sorte! Por desnorte, acaso ou esquecimento, alguém já descobriu o Pólo Norte e agora... agora pronto, agora já é tarde. Há sempre nas gavetas escritores secretos, cientistas e doutores, desenhos e projectos construtores feitos em meninos de tudo o que sonhámos fazer quando fosse a nossa vez! Cientistas em busca de Plutão, arqueólogos no Egipto, viajantes sempre sem destino, futebolistas de sucesso no Inter de Milão. E o curso da vida foi traidor, e o curso da vida foi cobarde, e o ciclo do tempo completou-se, e agora... e agora pronto, paciência, agora já é tarde... Agora é tarde. Emprego, casa, filhos muito queridos, algum sonhar ainda com amigos, às vezes sair, beber uns copos p’ra esquecer ou p’ra lembrar, e fazer ainda um certo alarde, talvez para esconder ou para abafar, como é já tão demasiado e tão impiedosamente tarde... Não... mas não, não; nunca é tarde para sonhar! Amanhã partimos todos para Istambul, Vladivostock, Alasca, Oslo, Dakar! Vamos à selva a Timor abraçar aquela gente e às montras de Amsterdam (que eu afinal também não sou diferente). Chegando a Tóquio são horas de jantar, depois temos de voltar a Bombaim, passando por Macau e Calcutá, que eu encontro Portugal em todo o lado e mesmo fugindo nunca saio de mim. E se esse marinheiro, galã, aventureiro, esse, que já não há, pois que me saiba cumprir com coerência, nos limites decentes da demência, nos limites dementes da decência; e cumpramo-nos todos, já agora, até ao fim, no que fazemos, na diferença do que formos e dissermos! E perguntando, criando rebeldias, conferindo aquilo que acreditamos e que ainda formos capazes de sonhar! E se aquilo, aquilo que nos dão todos os dias não for coisa que se cheire ou nos deslumbre, que pelo menos nunca abdiquemos de pensar com direito à ironia, ao sonho, ao ser diferente. E será talvez uma forma inteligente de, afinal, nunca... nunca, nunca ser tarde demais para viver, nunca ser tarde demais para perceber, nunca ser tarde demais para exigir, nunca ser tarde demais para ACORDAR."
Não se repete a dor não se repete a alegria inteiras renascidas de cada vez por isso viver é a maravilha de viver milhões de vidas de haver sempre outra porta para abrir e o desejo de abri-la.
O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas em volta, no meio da lama? Há quem se aproxime para o ajudar, quem apanhe as imagens mais sujas e lhas devolva limpando-as com a ponta do casaco. Mas, uma a uma, ele volta a colocá-las onde estavam, tão meticulosamente como se as dispusesse num desses tabuleiros que usa para a revelação dos negativos. E, esfregando-as contra as pedras da rua, desenha mais sulcos no papel fotográfico - riscos, manchas negras. «As belas fotografias», digo-lhe, desolada, enquanto procuro salvar ainda as menos atingidas. «Manchadas, estragadas. Porquê tudo isto? Eram tão leves as tuas nuvens, foram tão demoradas de fotografar na exacta medida de luz e de sombra». Molhado até aos ossos, o fotógrafo celeste parece estranhamente feliz com a sua obra. «Agora estão certas», diz. «Continuam tão belas quanto eram, mas têm também aquela margem de lixo e de desordem sem a qual nada pode ser verdadeiramente deste mundo».
Atravessei contigo a minuciosa tarde deste-me a tua mão, a vida parecia difícil de estabelecer acima do muro alto
folhas tremiam ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas que trazemos sem que possam ser ditas: astros cruzam-se numa velocidade que apavora inamovíveis glaciares por fim se deslocam e na única forma que tem de acompanhar-te o meu coração bate
José Tolentino Mendonça, in "A Estrada Branca"
Nota: Hoje é um dia especial: comemoramos a chegada da Primavera, o Dia da Árvore e o Dia da Poesia! Só coisas boas que enchem a minha vida de luz!
Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.
Não posso deixar de pensar hoje nas mulheres da minha vida. A minha avó-velha (a bisa), de quem tenho tantas saudades, as minhas avós, a minha mãe, a minha tia Mimi, a tia Júlia, a tia Emília, as professoras que me marcaram, a começar pela minha educadora da pré, a Augusta, algumas amigas, principalmente a Paula, que tem passado por tanto e continua a manter um espírito positivo invejável e admirável, e tantas, tantas outras que através de várias formas vieram parar à minha vida e me ensinaram a ser mais eu. Penso também em mim, que tenho suportado muito mais do que pensava ser possível, e é assim que me sinto cada vez mais mulher. Com tudo o que tenho vivido no último ano, tenho aprendido a admirar-nos cada vez mais. Somos muito mais do que pensamos, resistentes, fortes, capazes de tudo aquilo que os outros, sobretudo os homens, acham que nós não somos capazes. Temos, ao mesmo tempo, uma sensibilidade especial para o que nos rodeia e que faz com que, apesar de muitas dificuldades que possamos passar, nos mantenhamos sempre afáveis, preocupadas, meigas, carinhosas, capazes de abrir o coração e de amar sempre mais e mais. Cada vez gosto mais de ser mulher e tenho orgulho em mim e no que tenho conseguido fazer, apesar das contrariedades. Hoje é um dia para pensar assim, para pensar mais em mim e nas mulheres que mais amo. A todas dedico este poema...
Se for possível, manda-me dizer: - É lua cheia. A casa está vazia – Manda-me dizer, e o paraíso Há de ficar mais perto, e mais recente Me há de parecer teu rosto incerto. Manda-me buscar se tens o dia Tão longo como a noite. Se é verdade Que sem mim só vês monotonia. E se te lembras do brilho das marés De alguns peixes rosados Numas águas E dos meus pés molhados, manda-me dizer: - é lua nova – e revestida de luz te volto a ver.
Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio, e vejo saírem de dentro dele as palavras que ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco com o álcool da memória, para que se transformem num licor de remorso; outras, guardo-as na cabeça para as dizer, um dia, a quem me perguntar o que significam. Mas o silêncio de onde as palavras saíram volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.
No fim da estrada é o início da vida. O farol renasce ao som das ondas do mar que batem nas rochas chorando por ti. A saudade amanhece com a solidão ao seu lado. O dia vai ser longo, talvez não tenha fim. Mas no fim da estrada ao pé do farol vou esperar por ti.
Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
Hoje vi Invictus, o novo filme de Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela. À parte algumas críticas que até me tinham tirado a vontade de o ver, este filme tocou-me profundamente pelas várias mensagens que transmite. Uma delas é que "o perdão liberta a alma". Não é uma novidade, é certo, mas a forma como esta máxima é retratada fez-me pensar em muitas coisas e vê-las de outra perspectiva. Enquanto não formos capazes de perdoar, muitas vezes coisas tão pequeninas e insignificantes perante os grandes problemas que existem no mundo, a raiva e a dor habitarão o nosso coração e impedirão que sigamos a nossa vida e possamos ser felizes e livres.
O "bichinho" de África voltou ao ver algumas imagens, não sei porquê, mas a verdade é que a vontade e a necessidade de ir são cada vez maiores...
Também gostei muito do poema que "deu" o nome ao filme, uma lição de coragem e de superação dos momentos mais difíceis da nossa vida. "Sou o comandante da minha alma". Lindo!
Invictus
Out of the night that covers me, Black as the Pit from pole to pole, I thank whatever gods may be For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance I have not winced nor cried aloud. Under the bludgeonings of chance My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears Looms but the Horror of the shade, And yet the menace of the years Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate, How charged with punishments the scroll. I am the master of my fate: I am the captain of my soul.