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8.5.10

Libertação


Caminham de olhos postos na estrada ou no horizonte. Das mãos pendem rosários afagados até à exaustão. Cantam, animados por olhares cúmplices sorridentes. Quando a noite desce, parecem pirilampos encarreirados como formigas em direcção ao formigueiro, a casa onde encontrarão paz e consolo para todas as dores. Apoiados em paus, em guarda-chuvas ou uns nos outros, descalços, de chinelos ou sapatilhas, à chuva, ao sol, ao frio, ao vento, ao relento, os peregrinos enchem a estrada e fazem-me desviar o olhar até quase não conseguir ser racional para continuar a conduzir. Para onde caminham? Para quem? Que força é essa que os faz sorrir e não querer parar, mesmo quando o corpo parece apenas um resto do que foi e a dignidade aparentemente se esvaiu? Que fé é essa? Não deveria ser a fé libertadora? E se assim, na dor, no sofrimento, na tortura incessante do corpo, a alma encontrar libertação e conforto? Lembro-me, sim, lembro-me. Também eu já fui peregrina. Também eu já caminhei assim, flagelando o corpo e sentindo o espírito libertar-se através da terrível dor física. Para quê? Porquê? Ainda hoje não sei. Sei apenas que foi como peregrina que senti a mais forte comunhão com Deus e com o ser humano que alguma vez voltei a sentir. Talvez caminhem para isso. Em busca de uma comunhão que o dia a dia não deixa sentir. Mas hoje, que os vejo e secreta e estupidamente admiro, não sei.

18.2.10

Crescer na floresta

Há uns meses atrás, uma amiga disse-me, a propósito da minha angústia, que eu era como uma árvore. Para crescer precisava de espaço, de encontrar o meu próprio espaço, precisava que as outras árvores, que sempre tinham estado muito perto de mim, se afastassem um pouco, para que eu pudesse encontrar o meu lugar na floresta. Nunca mais me esqueci desta ideia e em momentos de maior sofrimento tento lembrar-me dela e do poder do seu significado. Hoje, com algum tempo e enquanto o sol despontava e acalmava as nuvens mais negras, passeei um pouco pelo campo, a observar e a pensar nisto. As árvores, quando crescem todas juntas acabam por ficar atrofiadas e nunca se desenvolvem como poderiam desenvolver se tivessem um pouco mais de espaço, o seu espaço. Basta olhar à nossa volta e reparar nisso. As árvores maiores, mais frondosas e diferentes são aquelas que estão um pouco mais afastadas das outras. As que estão muito juntas são quase todas iguais, com a sua individualidade, é certo, mas sem grandes diferenças que nos façam reparar mais numa que noutra. Ser diferente é difícil, tentar seguir o nosso próprio caminho dói muito, às vezes implica até alguma solidão, crescer não é tão cor-de-rosa como as histórias infantis mostram, mas se queremos ser nós próprios e não apenas uma cópia do que todos os outros são, o sacrifício há-de valer a pena. Vale, pelo menos, na nossa consciência e no nosso coração.

16.2.10

Histórias de e para a vida

Quase a acabar as mudanças, é tempo de arrumar coisas que não sei porque guardo, mas das quais não me consigo desfazer. É incrível como ao longo do tempo vamos acumulando tanta coisa! Lixo, dirão alguns, mas para mim esse "lixo" representa a memória. Como tenho uma péssima memória desde sempre (não, não tem só a ver com a idade...), tudo o que guardo me ajuda mais tarde a reconstruir histórias que de outro modo seriam definitivamente apagadas. Por isso é que sempre que decido mudar ou arrumar alguma coisa demoro imenso tempo, porque me perco nesses caminhos da minha memória, seguindo as pistas que vou deixando em gavetas, dentro de livros, de carteiras ou de caixas de todos os feitios e tamanhos.
Foi assim hoje. Ao abrir um dos armários de casa da minha mãe, que não devia abrir há anos, dei de caras com os meus livros da infância. Entre "As Histórias do Avôzinho", a colecção "Serelepe e Sapeca" e tantos outros, guardados como um tesouro estavam os livros da "Anita", os meus preferidos! Era completamente doida por estes livros e tinha a colecção quase toda. Adorava as ilustrações, as aventuras, os sonhos, os medos, tudo! Adorava ver a lista dos volumes publicados, no verso, e pedir à minha mãe os que ainda me faltavam. Devo ter lido cada um destes livros dezenas, senão centenas de vezes! Mas os que mais gostava eram "Anita e a Festa de Anos", o primeiro que tive e porque sonhava ter uma festa de anos como aquela, que nunca tive, claro, porque festas assim só nos livros ou para meninas ricas, e "Anita no Jardim", por causa das flores, do regato com nenúfares, do Pantufa a rebolar na relva... Aquele jardim era mágico! Com todas estas recordações, deixei-me ficar sentada no tapete, a reler e a sorrir novamente com as histórias que faziam parte do meu imaginário enquanto criança. Percebi que os livros nos podem influenciar e marcar a nossa personalidade de uma forma impressionante. Li recentemente "Os Livros que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz, um livro destinado a um público juvenil, mas que me cativou pelo título, e fiquei a pensar que também eu, em muitas alturas da minha vida, me senti devorada por alguns livros, no sentido em que me impressionaram de tal forma que me senti dentro deles, a viver aquela história como se de uma personagem me tratasse ou a imaginar que aquela seria a minha realidade e não apenas uma fantasia. Isso prejudicou-me muito, em alguns momentos, mas percebo agora que faz parte de mim e que, provavelmente, sempre serei assim, apesar de ter agora uma consciência diferente desta situação. O viver entre e dentro de histórias dá-nos também, curiosamente, uma perspicácia e uma sensibilidade diferente para entender a realidade, porque as histórias são, nem mais nem menos, que essa mesma realidade, embora figurada. É curioso ver como alguns pontos se ligam e percebemos de onde nos vêm determinados traços de personalidade que muitas vezes não entendemos. E tudo por causa dos livros infantis... da Anita! :)

1.2.10

Que mundo é este?

Vi há pouco mais uma excelente reportagem da SIC, "Este país não é para velhos", e, apesar de todas as histórias que já ouvi dos idosos com que trabalhei e das ajudantes de lar a quem dei formação, é impossível não ficar chocada, revoltada, enojada com as (tristes) histórias ali contadas. Histórias de maus-tratos, de abandono, de desprezo, de maldade, de desumanidade. É impressionante como há pessoas que são capazes de tratar assim os próprios pais, batendo-lhes, negligenciando-os, roubando-os! Há dias alguém me dizia com um ar fatalista que sentia que o mundo caminhava para um beco sem saída, que algo de muito mal estava para acontecer. Talvez seja verdade, para onde caminha a humanidade, afinal? Cada vez há menos lares, na verdadeira acepção da palavra. Cada vez menos as famílias querem cuidar dos seus idosos em casa, no conforto do seu verdadeiro lar. Por isso, num momento em que o meu avô já não me reconhece, embora me sorria e me beije sempre, tenho orgulho na minha família, sobretudo no meu pai e no meu tio, que fazem tudo para o manter em casa e cuidar dele com todo o amor do mundo, mesmo que seja preciso repetir-lhe 20 vezes a mesma coisa. Tenho noção de que é raro e, por isso mesmo, os admiro e amo ainda mais por isso. Sei que ele não está connosco como estava, está agora num mundo que nós não conhecemos, mas sinto-o feliz, o que me reconforta, sobretudo quando penso que mundo é este em que vivo e onde acho que cada vez menos há espírito de família e de respeito pelo ser humano.


12.12.09

Parar

Hoje abri um e-mail do Padre Pedro, Capelão do CHC, que já tinha recebido há dias, mas a que não tinha ligado. Num dos anexos, esta história, linda, que não conhecia e que me fez reflectir...

PORQUE GRITAMOS?

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: "Porque é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?" "Gritamos porque perdemos a calma", disse um deles. "Mas, para quê gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?" Questionou novamente o pensador. "Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça", retrucou outro discípulo. E o mestre volta a perguntar: "Então não é possível falar-lhe em voz baixa?" Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu: "Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido?" O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir esta distância precisam de gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente. E porquê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas." Por fim, o pensador conclui, dizendo: "Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".

Mahatma Gandhi

19.11.09

Livros e liberdade

Hoje comprei um livro na Feira do Livro da Escola. Ao abri-lo, li e achei curioso, porque me fez pensar em todas as polémicas levantadas em torno da edição de alguns livros...

"Os livros são tão livres
como os mais livres de nós
e por isso há quem receie
que os livros ganhem voz
e venham para o meio da rua
com a verdade nua e crua
do que têm para dizer.
E o que têm para dizer
é, no fundo, a liberdade
que o escritor tem ao escrever."

José Jorge Letria, in "Ler Doce Ler"

8.10.09

Hoje...


...penso, simplesmente, em como ao longo da vida os laços se vão quebrando. É nos momentos mais tristes, mais difíceis que percebemos como os laços são resistentes ou frágeis. E se estamos tristes, é ainda mais triste perceber como as pessoas se afastam nestes momentos. Quando estamos felizes, radiosos, temos uma aura à nossa volta que atrai as pessoas. Todos querem estar perto de quem está bem. Poucos fazem questão de estar perto de quem não está. Hoje, um amigo dizia-me que é importante "ver o copo meio cheio". É verdade. Apesar da tristeza, da mágoa e da desilusão, dar graças a Deus pelo que temos, mesmo que nos pareça muito menos do que pensávamos que tínhamos e do que desejávamos ter. Recordar os amigos que, mesmo longe, fazem sempre questão de nos mimar. Retribuir o olhar, os gestos, as palavras de ternura de quem diariamente se esforça por nos fazer sorrir. Hoje, penso nas pessoas que têm estado sempre, sempre, presentes. Nos bons, nos maus, em todos os momentos. Hoje, o meu pensamento, a minha amizade e a minha gratidão vão para vocês.

3.9.09

Tristeza


Conversar. Parece tão simples. Conversar. Dar. Receber. Escutar. Olhar. Abrir o coração. Partilhar. É tão difícil encontrar alguém com quem conversar. Alguém que esteja disponível, que se interesse verdadeiramente por nós, pelo que somos e pelo que sentimos. Alguém que queira ficar, que não tenha relógio nem agenda nem desculpas para nos dizer aquilo que sentimos sem serem precisas as palavras que apenas nos ferem. Alguém que esteja connosco. Simplesmente. É tão difícil!...

25.8.09

Estrada

O caminho que faço todos os dias quando vou trabalhar é de uma beleza rara. Posso-me dar ao luxo de dizer que não há semáforos nem filas de trânsito, às vezes sou obrigada a parar, mas apenas para ver atravessar algum rebanho ou outros tipos de animais, sobretudo de noite, como ratinhos, lebres, raposas ou até javalis.

De dia, é maravilhoso ver o sol reflectir-se nas diferentes tonalidades de verde que vou descobrindo ao longo do caminho. Passo pelas vinhas, que vão mudando a cor da sua roupagem consoante as estações do ano, e pelos montes Melo e Gerumelo, que me fazem lembrar a lenda ouvida desde pequenina e que, apesar de tão perto, nunca visitei o Castelo de Germanelo.

Vejo rostos marcados pela vida, mas sorridentes. As senhoras, de batas floridas e lenços no cabelo, seguem atarefadas na sua lida. Os homens sentam-se nos muros de pedra, a trocar conversas ou apenas a partilhar silêncios. Vejo sempre o mesmo idoso, sentado exactamente no mesmo sítio, a olhar espantado os carros que passam. Penso sempre quem será aquele senhor, que histórias teria para contar, no que pensa ao ver passar a vida à sua frente. Sentir-se-á triste? Sozinho? Tranquilo? Satisfeito com os anos que já viveu? À espera de alguma coisa que teima em não chegar?... Sigo, absorta nos meus pensamentos, mas com vontade de parar e conversar com ele.

Mais à frente vejo uma eira coberta de milho, a secar ao sol. Ontem, quando regressava para casa, estavam a fazer a descamisada, como se ali o tempo não tivesse passado e ainda se vivesse o "antigamente". Não posso deixar de me lembrar de como era simultaneamente estranho e divertido descalçar-me e fazer com os pés os carreirinhos no milho, estendido na eira da minha avó. Adorava fazer aquelas estradinhas e sentir o calor dos bagos de milho entre os dedos dos pés.

Continuo o meu caminho. A paisagem começa a mudar, entro na serra, com os típicos e lindíssimos carvalhos da serra de Sicó, os tradicionais moinhos de vento ao longe, no Outeiro, os pinheiros e os eucaliptos. Quando abro o vidro, o cheiro a terra e a ervas invade o carro e, com Ansião no horizonte, não posso deixar de me sentir uma privilegiada por ter acesso a esta dádiva logo pela manhã...

24.8.09

Descoberta


Ninguém me contou que o silêncio era o significado
das palavras muito verdadeiras.

José Luís Peixoto, in Uma Casa na Escuridão
Imagem: Oona Patterson

Espinhos

Enquanto conduzia para o trabalho, encontrei mortos na estrada dois ouriços. Não é nenhuma novidade, toda aquela zona deve estar povoada destes simpáticos animais, porque é comum encontrá-los a passear de noite (são principalmente noctívagos) e fazer manobras muitas vezes perigosas para mim para os salvar das rodas assassinas do meu carro.

O meu avô, conhecendo o meu encantamento por estes bichos, às vezes apanhava um e punha-o dentro de uma lata. Chamava-me depois, sempre com um sorriso maroto, e retirava a tampa com muito jeitinho. Eu tinha sempre medo que fosse alguma partida e que de dentro da lata saísse algum animal que me deixasse aterrorizada... Mas a alegria dele era ver a minha cara, primeiro receosa, depois a abrir-se num sorriso, com os olhos a brilhar, e fascinada a observar aquele animal, aparentemente tão dócil. No entanto, mal o meu avô lhe tocava ao de leve com um pau, o ouriço enrolava-se numa bola perfeita, abrindo os seus espinhos, que luziam imponentes, numa reacção simultânea de protecção e de ataque. Eram sempre momentos deliciosos, em que o mundo à minha volta parecia parar e mesmo agora que os recordo, continuam a ter o mesmo poder de me deixar suspensa no tempo.

Sinto-me como um ouriço neste momento. Ao mínimo toque, enrolo-me sobre mim própria e mostro os espinhos, naquilo a que os psicólogos, como eu, chamam de reacção de defesa... Não gosto de me sentir assim, não quero ser assim. Dos ouriços quero apenas conservar a memória feliz dos tempos de criança e de adolescente, quero apenas continuar a desviar-me para os deixar seguir, tranquilamente, o seu caminho. Quero recolher os espinhos e voltar a sorrir, sem medo e sem mágoas. Quando, não sei...

22.8.09

Liberdade


Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar.
O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro.


Mia Couto, in Jesusalém

22.5.09

Mundo

Olho à minha volta. Observo o mundo: o céu, o mar, a terra, os cheiros, as cores, as pessoas. Será que também olham assim à sua volta? Será que no meio de tanta agitação, as pessoas param e pensam tudo isto? Às vezes, apesar de todos os problemas e momentos menos bons, olho à minha volta e percebo que o mundo é mesmo tão bonito!... E se pararmos um pouco, no meio do silêncio, sentimos que tudo faz sentido, que tudo é perfeito: o vermelho das papoilas no meio dos campos de trigo, o vento a cantar por entre as folhas das árvores, o sol a dar-nos vida e energia, a sinfonia dos grilos por entre a erva seca, o som melodioso da água fresca a nascer no meio do monte, as estrelas a brilhar no céu, a lua a acompanhar a nossa noite...

26.3.09

Verdade


O vazio.
Sempre o vazio em mim.
Apesar do amor,
dos sonhos,
do sorriso.
Agora e sempre o vazio.

25.3.09

Palavras

O silêncio incomoda. Já não conseguimos estar sem falar, temos que ocupar todos os momentos com palavras, tantas vezes fúteis, vazias de significado ou sentimentos. Falamos sem, no fundo, dizer nada. Quantas palavras dizemos num dia que sejam verdadeiras, naturais, sentidas? Quantas?

18.3.09

Emoção




O que é bonito enche os olhos de lágrimas.

Adélia Prado

17.3.09

Calar



Calamos, não porque não tenhamos o que dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo aquilo que gostaríamos de dizer.

Sor Juana