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25.4.10

Liberdade!



Há muitas músicas, essencialmente músicas e imagens, que associo a Abril. Esta é uma das mais marcantes, porque desde menina que o meu pai a canta, com um entusiasmo como raramente lhe vi noutras coisas. Claro que às vezes não era bem esta a versão... era uma um pouco mais... atrevida, mas a mensagem estava lá! :) "Somos livres de voar"!

5.4.10

Aleluia!


As campainhas anunciam a chegada. Estão cada vez mais próximo. José dirige-se, com o apoio da bengala, para a porta, aberta de par em par desde a hora de almoço, à espera da visita, a única que tem durante todo o ano, desde a morte da mulher, há dois anos. Sabia que só viriam por volta das três horas, mas pouco depois do meio-dia já tinha a porta aberta. Pôs a toalha branca de linho na mesa, a mesma que usaram durante 60 anos para as visitas importantes, como a daquele dia, abriu o pacote de amêndoas que o padeiro lhe tinha oferecido e colocou-o no prato cavalinho, tão antigo como o chão da casa que o abrigava. No pratinho mais pequeno de vidro pôs o folar, uma nota de dez euros, pouco, mas o que podia dar. Estava tudo pronto. Não, faltava uma coisa muito importante! A mulher nunca lhe perdoaria aquele esquecimento. Foi ao pequeno quintal e apanhou um molho de flores brancas, daquelas a que chamavam flores da Páscoa, porque floresciam sempre nesta data. Partiu os ramos aos bocadinhos e espalhou-os em frente à entrada da casa. Agora sim, estava tudo pronto para a visita.
Foi-se sentar à entrada da casa no banco de madeira. Apoiado na bengala, deixou-se ficar a ver passar o tempo. O velho relógio de parede ia marcando o compasso de espera, tão cansado quanto ele. Àquela hora o silêncio era geral, estariam todos, certamente, a almoçar com a família, um bom cabrito, como era tradição, e como ele tantas vezes também fizera. Teve saudades desse tempo, desse sabor, do cheiro que fugia do forno a lenha e invadia a cozinha. Engoliu em seco. Para quê recordar? Coisas tristes, não voltam mais esses tempos, vamos lá ver se a fogueira ainda está acesa. Passou para o borralho, sempre se entretinha com a tenaz a mexer as brasas e ia ouvindo a televisão, mesmo sem ouvir. Era um barulho qualquer que estava ali, só isso, para atenuar o silêncio que escorria das paredes húmidas e frias.
Mas agora estavam perto, já se ouviam as campainhas ali mesmo ao lado. José dirigiu-se à porta, ajeitando o casaco cinzento que só vestia neste dia, para receber Nosso Senhor. Já aí vêm. Compôs novamente o casaco, endireitou-se, tirou a boina. As campainhas agora estão dentro da sua casa, dentro do seu silêncio, dentro do seu coração. Secou uma lágrima. Teimosas. Com a idade deixou de as conseguir controlar, tornaram-se tão fortes como um rio que por mais diques que construam corre sempre em direcção ao mar, poderoso, resoluto, levando tudo à sua frente. Paz a esta casa, aleluia, aleluia! E a todos os que nela habitam, aleluia, aleluia! Mais uma, teimosas, a mão disfarçadamente no rosto, a fazer de conta que se coçava, talvez ninguém tenha visto. Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia! Alegremo-nos todos no Senhor, aleluia, aleluia! Um beijo em Nosso Senhor, um aperto de mão aos rapazes e beijos às raparigas. O olhar curioso a percorrer os rostos desconhecidos. Mas que lindos meninos! Quem é esta? Filha de quem? Já não conheço ninguém, vocês agora crescem tanto e eu nunca saio de casa, já não conheço ninguém. Tirem uma amêndoa. Não, obrigada, senhor José, não temos fome. Olhem que isso é folar, que todos os anos gosto de dar, enquanto eu for vivo, nem que seja na cama, hei-de dar o folar. Obrigada, senhor José. Não querem sentar-se um bocadinho, descansem ao menos que a volta ainda é longa. Não, obrigada, temos que ir que isto é sempre a correr, já sabe, daqui a pouco é noite. E as campainhas saem a correr pela porta, aberta de par em par, para receber Nosso Senhor. Tirem ao menos uma amêndoa! Mas elas já lá vão, a tilintar pela rua, em direcção a outras portas. O sol penetra-lhe nos olhos, quase o cega. As flores pisadas, a porta aberta, as amêndoas no prato, a casa vazia, como nunca deixou de estar. Não ficou ninguém. José baixou os braços, deixou cair a cabeça, vencido. Um homem não chora. Um homem não foi feito para estar sozinho. E as lágrimas rasgaram-lhe as rugas e caíram pesadamente no chão.

21.3.10

Renovação


Gosto desta imagem porque me lembra o ciclo da vida e porque retrata uma das árvores mais bonitas para mim, a magnólia. Relaciono sempre a Primavera com o florir das magnólias do jardim dos meus pais. As de folha caduca, embora não sejam as mais bonitas, dão flores antes das folhas, e é lindo vê-las cheias de flores rosas e lilases penduradas nos ramos aparentemente secos e velhos, mas que de um dia para o outro se cobrem de folhas que lhes fazem companhia. O cheiro faz-me lembrar sabonete, de tão doce e intenso que é. Hoje estavam ainda mais bonitas com o reflexo dos raios de um sol ainda tímido, mas já bem quente, a comemorar uma Primavera muito desejada...

8.3.10

Magia em forma de berlinde

Hoje passei num sítio que me traz boas memórias. Quando era pequena costumava ir para o rio com a minha ama. Enquanto ela lavava a roupa, eu brincava na água, que na altura era límpida e onde havia peixinhos cinzentos pequeninos, atrás dos quais não me cansava de andar, embora eles se escondessem sempre em recantos escuros onde eu tinha medo de pôr a minha mãozita. Na altura, aquele era um sítio mágico. Tenho péssima memória, mas, curiosamente, lembro-me perfeitamente daquele lugar, tão bem como se lá estivesse mesmo agora, a sentir o fundo do rio coberto de seixos redondos e lisos debaixo dos pés. Era um lavadouro de cimento feito de uma forma artesanal,  só com as pedras lisas onde se esfregava a roupa, muito simples, tão simples que parecia fazer parte da paisagem. Estava construído mesmo ao pé de uma ponte relativamente recente em forma de meia lua, debaixo da qual passávamos ou onde nos abrigávamos quando a chuva resolvia pregar uma partida. Na altura da construção, alguém tinha deixado umas marcas no cimento que sempre me intrigaram. Havia também uns desenhos que alguém tinha feito já mais tarde, mas eu não compreendia o que queriam dizer. Ainda hoje gostava de lá voltar para as rever e tentar entender. Lembro-me que não passava muito para lá da ponte porque o rio começava a afundar e eu tinha bastante medo. Às vezes assustava-me e lá vinha a correr por entre a água a gritar pela minha ama. Debaixo da ponte as nossas palavras faziam eco, e era muito divertido brincar com os sons que se iam formando à mercê da nossa imaginação. Naquele sítio havia sempre silêncio, um silêncio bom, de comunhão com a natureza, de paz. Naquela altura raramente passavam carros na ponte, de vez em quando alguém de bicicleta ou a pé, e havia sempre um bocadinho de conversa para quem parava a descansar. Uma das coisas que adorava nessas "viagens" ao lavadouro era quando a garrafa verde de lixívia estava quase a chegar ao fim e a Celeste me tirava os berlindes que vinham no fundo para eu brincar. Era uma festa! Não jogava ao berlinde, como os meus colegas faziam, porque não gostava, mas inventava outras brincadeiras. Ficava muitas vezes a olhar para aquelas bolinhas de vidro e pensava como seriam feitas. A Celeste nunca me soube responder e eu imaginava milhares de maneiras para criar aqueles efeitos dentro das bolinhas. Como se punham aquelam "fitinhas" coloridas lá dentro?... Nunca descobri a resposta porque, confesso, me esqueci dos berlindes. Mas hoje, ao passar por cima daquela ponte e ao ver o lavadouro, agora abandonado, coberto de silvas e sem hipótese de se conseguir ver o rio, lembrei-me daqueles momentos em que fui tão feliz enquanto menina. E encontrei a resposta... Aqui fica! É impressionante, mas, mesmo assim, na minha cabeça continuo a perguntar "como se conseguem pôr aquelas fitinhas coloridas lá dentro?"... E continua a ser magia...

16.2.10

Histórias de e para a vida

Quase a acabar as mudanças, é tempo de arrumar coisas que não sei porque guardo, mas das quais não me consigo desfazer. É incrível como ao longo do tempo vamos acumulando tanta coisa! Lixo, dirão alguns, mas para mim esse "lixo" representa a memória. Como tenho uma péssima memória desde sempre (não, não tem só a ver com a idade...), tudo o que guardo me ajuda mais tarde a reconstruir histórias que de outro modo seriam definitivamente apagadas. Por isso é que sempre que decido mudar ou arrumar alguma coisa demoro imenso tempo, porque me perco nesses caminhos da minha memória, seguindo as pistas que vou deixando em gavetas, dentro de livros, de carteiras ou de caixas de todos os feitios e tamanhos.
Foi assim hoje. Ao abrir um dos armários de casa da minha mãe, que não devia abrir há anos, dei de caras com os meus livros da infância. Entre "As Histórias do Avôzinho", a colecção "Serelepe e Sapeca" e tantos outros, guardados como um tesouro estavam os livros da "Anita", os meus preferidos! Era completamente doida por estes livros e tinha a colecção quase toda. Adorava as ilustrações, as aventuras, os sonhos, os medos, tudo! Adorava ver a lista dos volumes publicados, no verso, e pedir à minha mãe os que ainda me faltavam. Devo ter lido cada um destes livros dezenas, senão centenas de vezes! Mas os que mais gostava eram "Anita e a Festa de Anos", o primeiro que tive e porque sonhava ter uma festa de anos como aquela, que nunca tive, claro, porque festas assim só nos livros ou para meninas ricas, e "Anita no Jardim", por causa das flores, do regato com nenúfares, do Pantufa a rebolar na relva... Aquele jardim era mágico! Com todas estas recordações, deixei-me ficar sentada no tapete, a reler e a sorrir novamente com as histórias que faziam parte do meu imaginário enquanto criança. Percebi que os livros nos podem influenciar e marcar a nossa personalidade de uma forma impressionante. Li recentemente "Os Livros que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz, um livro destinado a um público juvenil, mas que me cativou pelo título, e fiquei a pensar que também eu, em muitas alturas da minha vida, me senti devorada por alguns livros, no sentido em que me impressionaram de tal forma que me senti dentro deles, a viver aquela história como se de uma personagem me tratasse ou a imaginar que aquela seria a minha realidade e não apenas uma fantasia. Isso prejudicou-me muito, em alguns momentos, mas percebo agora que faz parte de mim e que, provavelmente, sempre serei assim, apesar de ter agora uma consciência diferente desta situação. O viver entre e dentro de histórias dá-nos também, curiosamente, uma perspicácia e uma sensibilidade diferente para entender a realidade, porque as histórias são, nem mais nem menos, que essa mesma realidade, embora figurada. É curioso ver como alguns pontos se ligam e percebemos de onde nos vêm determinados traços de personalidade que muitas vezes não entendemos. E tudo por causa dos livros infantis... da Anita! :)

5.1.10

O balão...


Há um tempo atrás encontrei, por acaso, esta imagem, que achei lindíssima. Faz recordar os meus tempos de menina. Quando íamos passear, o meu pai comprava-me sempre um balão, que me prendia à mãozinha ou ao dedo, e lá ia eu, toda contente, a puxar o fio e a ver o balão baixar e subir. Muitas vezes o balão desprendia-se (seria eu, de propósito?...) e subia, subia, subia... e eu ficava a vê-lo, até desaparecer. Intrigava-me para onde iria o meu precioso balão. Ficava a imaginar uma espécie de país dos balões, onde todos se juntariam sem que, no entanto, nós os pudéssemos ver. Hoje, reparei há um tempo numa festa de rua, não há meninas com balões. Perdeu-se a magia das coisas simples, mas tão especiais. Há momentos inesquecíveis.

28.12.09

Coração sem imagens


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.



Raul de Carvalho, in "Poemas de Amor"

25.12.09

Querido avô...


...faz esta noite um ano que nos deixaste. Sinto a tua falta mais do que nunca, sinto falta sobretudo da tua ternura, dos teus mimos, das palavras bonitas, das histórias... Tantas, tantas saudades, que a emoção não deixa dizer mais nada...

Estás sempre no meu coração!

24.12.09

A minha música, hoje

14.12.09

Ler (também) é recordar

Estou a adorar o livro que comecei ontem a ler! Cada página é uma descoberta cheia de emoção e ternura. Deixo um bocadinho, para aguçar a curiosidade...

"O toque da sua mão permaneceu sempre vivo na minha memória. Era uma sensação diferente de tudo o que eu até então experimentara, e mesmo depois disso. Tratava-se, pura e simplesmente, da mão pequena e quente de uma rapariguinha de doze anos. E, contudo, aqueles cinco dedos e a palma daquela mão continham, tal como uma caixinha de amostras, tudo o que eu queria saber acerca da vida - e tudo o que havia a saber. E ela, ao pegar na minha mão, teve o condão de me ensinar todos os segredos. Ajudou-me a compreender que no mundo real existia um lugar como aquele. Durante dez segundos, tive a sensação de me ter transformado num passarinho perfeito, capaz de voar no céu, ao sabor dos ventos. Lá do alto, alcançava as paisagens longínquas, tão distantes que não era capaz de distinguir com nitidez as coisas que havia para ver, apesar de saber que existiam. Ao mesmo tempo, sabia que um dia viajaria até essas paragens. Uma tal certeza deixou-me sem fôlego e provocou um tremor no meu peito."

Haruki Murakami, in "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol"

10.12.09

Vida nova

Já estou na casa nova! Foi um dia difícil e, para dizer a verdade, não sei se hoje consigo dormir. São muitas emoções juntas, sobretudo o vazio, que me deixa sem saber muito bem o que fazer, num espaço que já é meu, mas ainda não é. É estranho, mas acredito que me adaptarei bem, como sempre me aconteceu, só preciso de tempo.
Ainda faltam algumas coisas, sobretudo fotografias e quadros, mas, aos poucos, a casa vai ganhando vida...

A janela da cozinha é grande e deixa entrar o sol, perfeita para as flores!

Hoje apeteceu-me comprar flores frescas, para comemorar!

A minha cómoda nova é linda! Sim, aquela que pesava uma tonelada e que tive que carregar sozinha!! Obrigada, mano, pela ajuda na montagem! Ficou perfeita!

Um dos recantos da estante nova, cheia de livros e de recordações de momentos especiais.

O primeiro livro que vou ler nesta casa. Não conheço este autor, mas estou curiosa. Falta o meu cantinho de leitura, que estará pronto em Janeiro, debaixo da janela enorme do meu quarto.

9.12.09

Estou...


...de férias e em mudanças. Bem, férias como quem diz, porque a formação continua e não tenho propriamente descanso, mas ainda bem, porque preciso de me sentir ocupada.
As mudanças parece que nunca mais acabam, é impressionante como vou acumulando tanta coisa sem dar por isso, e ando esgotada de subir e descer escadas, carregar caixotes e sacos e desarrumar e voltar a arrumar! O corpo pede descanso, vou abusando dos comprimidos para as dores (ai, ai!), mas está quase! Por outro lado, é engraçado abrir caixas e gavetas e encontrar fotografias, bilhetes de cinema ou concertos, postais, enfim, recordações de momentos felizes. A verdade é que demoro muito mais tempo porque às vezes "perco-me" assim...
Amanhã conto já dormir na casa nova e prometo desvendar um bocadinho do meu novo cantinho! Está a ficar lindo!

1.12.09

Ausência


Construímos a casa, alheios ao medo,
por entre a solidão e o arvoredo.
Uma varanda dava para o mar.

Depois chegou a noite e o enredo
do escuro se infiltrou como em segredo
por todos os recantos do lugar.

Foi quando tu partiste e muito cedo
dei por falta de ti e do luar.


Torquato da Luz

30.11.09

Simples

26.11.09

Refúgio

1.11.09

Quem...

...não se lembra de ir pedir o "pão por Deus"? Na minha aldeia sempre foi tradição e tenho boas recordações deste dia, com as minhas amigas Dulce e Joana, com quem percorri muitas casas a recitar o Pai Nosso e a cantar. As pessoas gostavam muito de nós e trazíamos sempre um saco enorme de ofertas, que no final partilhávamos! Boas memórias, com muita ternura...

22.10.09

Falta

Hoje senti muita falta de algumas pessoas na minha vida. Falta de as ver, de as tocar, de as abraçar, de as olhar e ser olhada por elas, de chorar com elas, de sorrir, de conversar, de as ouvir, de estar. Às vezes penso que a vida passa e nós nos deixamos atropelar por ela, esquecendo telefones ou moradas, datas de aniversário, dias especiais, de pessoas que foram importantes para nós. De pessoas que são importantes, mas de quem nos afastamos ou damos a desculpa (mais fácil) de que "a vida é assim". E depois chegam dias, como o de hoje, em que por muito que tenhamos que trabalhar, essas pessoas nos vêm à memória de uma forma que nos faz esquecer todo o mundo à nossa volta, como se estivéssemos num filme e as cenas avançassem, mas nós as víssemos exactamente no mesmo sítio, sem qualquer tipo de movimento, só sabendo que elas estão a acontecer. E a falta é imensa, maior que nós próprios. Hoje, agora mesmo, todas as pessoas que me faltam estão no meu coração e no meu pensamento. Só gostava que o soubessem e sentissem...

16.10.09

Só isto...