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26.6.10

Casa

Ao reler o caderno com mais atenção, descubro com surpresa que todos os dias têm algumas palavras em comum:

Sinto-me em casa. Estranhamente, sinto-me em casa. Cada vez mais me sinto em casa.

Onde é, afinal, a nossa casa?... Hoje fico a pensar nisto e a recordar imagens que não mais me sairão da memória.

8.5.10

Libertação


Caminham de olhos postos na estrada ou no horizonte. Das mãos pendem rosários afagados até à exaustão. Cantam, animados por olhares cúmplices sorridentes. Quando a noite desce, parecem pirilampos encarreirados como formigas em direcção ao formigueiro, a casa onde encontrarão paz e consolo para todas as dores. Apoiados em paus, em guarda-chuvas ou uns nos outros, descalços, de chinelos ou sapatilhas, à chuva, ao sol, ao frio, ao vento, ao relento, os peregrinos enchem a estrada e fazem-me desviar o olhar até quase não conseguir ser racional para continuar a conduzir. Para onde caminham? Para quem? Que força é essa que os faz sorrir e não querer parar, mesmo quando o corpo parece apenas um resto do que foi e a dignidade aparentemente se esvaiu? Que fé é essa? Não deveria ser a fé libertadora? E se assim, na dor, no sofrimento, na tortura incessante do corpo, a alma encontrar libertação e conforto? Lembro-me, sim, lembro-me. Também eu já fui peregrina. Também eu já caminhei assim, flagelando o corpo e sentindo o espírito libertar-se através da terrível dor física. Para quê? Porquê? Ainda hoje não sei. Sei apenas que foi como peregrina que senti a mais forte comunhão com Deus e com o ser humano que alguma vez voltei a sentir. Talvez caminhem para isso. Em busca de uma comunhão que o dia a dia não deixa sentir. Mas hoje, que os vejo e secreta e estupidamente admiro, não sei.

5.5.10

Brilhar



"Deixa a música
Crescer nesta cadência
Na tela do meu coração
Voltar a ser criança
E assim esquecer a solidão
Os olhos a brilhar
Numa sala escura"

1.5.10

Imagem: Duy Huynh

"Tudo é semente."

Novalis, in "Fragmentos"

6.4.10

E se a vida...

...fosse como um filme?...
Como seria o meu?

8.3.10

Perdida...

...numa livraria feita de sonhos e poesia.

Imagem encontrada aqui.

4.3.10

Coragem


"Ama-me quando eu menos mereço,
porque é quando eu mais preciso".

Enquanto conduzia ouvi esta frase na rádio. Fiquei a pensar nela todo o dia. É nos momentos em que somos mais fracos, em que estamos mais tristes, em que cometemos erros ou estamos apenas perdidos, à deriva, sem saber o que fazer, que mais precisamos que alguém nos dê a mão, nos ame, cuide de nós, se preocupe, esteja simplesmente presente e nos faça sentir o seu amor. É tão difícil amar e estar presente nos momentos mais difíceis! É o mais difícil. Infelizmente, são muito poucas as pessoas que têm a capacidade de o fazer, de perdoar quando há necessidade de perdão, de tentar compreender o outro, de aceitar, de ouvir, de estar, de permanecer, de resistir. O que é o amor senão isso?...

24.2.10

Não sei...

16.2.10

Histórias de e para a vida

Quase a acabar as mudanças, é tempo de arrumar coisas que não sei porque guardo, mas das quais não me consigo desfazer. É incrível como ao longo do tempo vamos acumulando tanta coisa! Lixo, dirão alguns, mas para mim esse "lixo" representa a memória. Como tenho uma péssima memória desde sempre (não, não tem só a ver com a idade...), tudo o que guardo me ajuda mais tarde a reconstruir histórias que de outro modo seriam definitivamente apagadas. Por isso é que sempre que decido mudar ou arrumar alguma coisa demoro imenso tempo, porque me perco nesses caminhos da minha memória, seguindo as pistas que vou deixando em gavetas, dentro de livros, de carteiras ou de caixas de todos os feitios e tamanhos.
Foi assim hoje. Ao abrir um dos armários de casa da minha mãe, que não devia abrir há anos, dei de caras com os meus livros da infância. Entre "As Histórias do Avôzinho", a colecção "Serelepe e Sapeca" e tantos outros, guardados como um tesouro estavam os livros da "Anita", os meus preferidos! Era completamente doida por estes livros e tinha a colecção quase toda. Adorava as ilustrações, as aventuras, os sonhos, os medos, tudo! Adorava ver a lista dos volumes publicados, no verso, e pedir à minha mãe os que ainda me faltavam. Devo ter lido cada um destes livros dezenas, senão centenas de vezes! Mas os que mais gostava eram "Anita e a Festa de Anos", o primeiro que tive e porque sonhava ter uma festa de anos como aquela, que nunca tive, claro, porque festas assim só nos livros ou para meninas ricas, e "Anita no Jardim", por causa das flores, do regato com nenúfares, do Pantufa a rebolar na relva... Aquele jardim era mágico! Com todas estas recordações, deixei-me ficar sentada no tapete, a reler e a sorrir novamente com as histórias que faziam parte do meu imaginário enquanto criança. Percebi que os livros nos podem influenciar e marcar a nossa personalidade de uma forma impressionante. Li recentemente "Os Livros que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz, um livro destinado a um público juvenil, mas que me cativou pelo título, e fiquei a pensar que também eu, em muitas alturas da minha vida, me senti devorada por alguns livros, no sentido em que me impressionaram de tal forma que me senti dentro deles, a viver aquela história como se de uma personagem me tratasse ou a imaginar que aquela seria a minha realidade e não apenas uma fantasia. Isso prejudicou-me muito, em alguns momentos, mas percebo agora que faz parte de mim e que, provavelmente, sempre serei assim, apesar de ter agora uma consciência diferente desta situação. O viver entre e dentro de histórias dá-nos também, curiosamente, uma perspicácia e uma sensibilidade diferente para entender a realidade, porque as histórias são, nem mais nem menos, que essa mesma realidade, embora figurada. É curioso ver como alguns pontos se ligam e percebemos de onde nos vêm determinados traços de personalidade que muitas vezes não entendemos. E tudo por causa dos livros infantis... da Anita! :)

Quero encontrar...

...a chave da felicidade!...

10.2.10

Estar

Hoje ouvi uma das pessoas que acompanho dizer-me a sorrir que o seu sonho ou projecto de vida era apenas "fazer feliz quem eu amo". Disparatado? Difícil? Impossível? Não. Simples. Sábio. Encontrar na felicidade do outro a própria felicidade. Quantas vezes somos egoístas e pensamos apenas em nós próprios, em projectos grandiosos, em ambições desmedidas!... Focamo-nos apenas no que vemos e sentimos e não somos capazes de sair de nós para ir ao encontro do outro, para dar, ouvir, ser, estar.
Hoje fiquei sem resposta perante tamanha humildade.

9.2.10

Profundamente...

...triste.

Fotografia retirada daqui.

3.1.10

Ano novo...

...vida nova? Sempre achei esta ideia uma ilusão, e é-o, de facto, pelo menos para mim. Nada muda por o número no calendário ser diferente. A vida que temos no dia 31 de Dezembro é transportada para dia 1 de Janeiro, mesmo que nos apeteça (e tentemos) fechar os olhos com muita força, sorrir e dizer "está tudo bem...", como os nossos pais nos faziam quando tínhamos um sonho mau, em crianças. Mas abrimos os olhos e a nossa vida é a mesma, quando não pior, porque há acontecimentos que não escolhem datas nem se afugentam com festas. É, a vida é mesmo difícil, não há nada a fazer contra isso, apenas aproveitar cada momento feliz como se fosse o último, porque os maus arrasam-nos de tal maneira que nos fazem esquecer todos os outros. Ao contrário do que possa parecer, comecei o ano com esperança, mas o que fazemos quando tudo à nossa volta parece desabar, apesar da nossa vontade de resistir e de recuperar a capacidade de sonhar?...
Começo o ano com música e com a poesia de Vinicius, entre a tristeza da dureza e da inevitabilidade da vida e a esperança em dias mais felizes e povoados de sorrisos alegres.



19.12.09

Encontro


Ainda em mudanças, encontrei hoje dentro de uma gaveta(!) um pequeno livro com pensamentos de Khalil Gibran, que adquiri há muitos anos atrás. Um pequenino milagre!...



«Dizem-me no seu despertar: "Tu e o mundo em que vives não são
mais do que um grão de areia na praia de um mar infinito."
Eu no meu sonho digo-lhes: "Sou o mar infinito, e todos os mundos
não são mais do que grãos de areia na minha praia."»

Khalil Gibran, in "Areia e Espuma"

12.12.09

Parar

Hoje abri um e-mail do Padre Pedro, Capelão do CHC, que já tinha recebido há dias, mas a que não tinha ligado. Num dos anexos, esta história, linda, que não conhecia e que me fez reflectir...

PORQUE GRITAMOS?

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: "Porque é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?" "Gritamos porque perdemos a calma", disse um deles. "Mas, para quê gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?" Questionou novamente o pensador. "Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça", retrucou outro discípulo. E o mestre volta a perguntar: "Então não é possível falar-lhe em voz baixa?" Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu: "Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido?" O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir esta distância precisam de gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente. E porquê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas." Por fim, o pensador conclui, dizendo: "Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".

Mahatma Gandhi

4.12.09

A ouvir...



...o lindíssimo novo álbum de Norah Jones...

26.11.09

Os meus...

...Desejos Vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

20.11.09

Terra e céu

Alentejo, descanso, silêncio... esta semana tem sido tão preenchida que já parece tudo muito distante... Mas a verdade é que a paz interior se mantém.

Não me esqueço de manter os pés na terra...


mas sem nunca deixar de olhar para o céu e continuar a sonhar...

21.10.09

Enquanto...

...o sono não vem.

8.10.09

Hoje...


...penso, simplesmente, em como ao longo da vida os laços se vão quebrando. É nos momentos mais tristes, mais difíceis que percebemos como os laços são resistentes ou frágeis. E se estamos tristes, é ainda mais triste perceber como as pessoas se afastam nestes momentos. Quando estamos felizes, radiosos, temos uma aura à nossa volta que atrai as pessoas. Todos querem estar perto de quem está bem. Poucos fazem questão de estar perto de quem não está. Hoje, um amigo dizia-me que é importante "ver o copo meio cheio". É verdade. Apesar da tristeza, da mágoa e da desilusão, dar graças a Deus pelo que temos, mesmo que nos pareça muito menos do que pensávamos que tínhamos e do que desejávamos ter. Recordar os amigos que, mesmo longe, fazem sempre questão de nos mimar. Retribuir o olhar, os gestos, as palavras de ternura de quem diariamente se esforça por nos fazer sorrir. Hoje, penso nas pessoas que têm estado sempre, sempre, presentes. Nos bons, nos maus, em todos os momentos. Hoje, o meu pensamento, a minha amizade e a minha gratidão vão para vocês.